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Cleber Toledo
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Cleber Toledo é jornalista desde 1992, com passagens por jornais em Paraná, São Paulo e Tocantins. Fundador do Portal CT.

Novela sem fim

CLEBER TOLEDO, DA REDAÇÃO 13 de Sep de 2017 - 09h18, atualizado às 09h57
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Foto: Arquivo CT/set. 2013
Momento em que a senadora Kátia era anunciada como a mais nova peemedebista, em 2013
A executiva nacional do PMDB volta a se reunir na tarde desta quarta-feira, 13, para decidir sobre a novela sem fim da senadora tocantinense Kátia Abreu, que faz e desfaz e ainda nesta semana usou a imprensa regional para tripudiar sobre os líderes do partido, que parece continuar sem coragem para pôr fim à sua angústia. Claro que Kátia tem razão ao dizer que o PMDB não tem moral para expulsar quem quer que seja. A sigla está chafurdada no maior lamaçal de sua história e parece que isso a enredou numa crise meio que existencial e, por isso, hesita em agir. De toda forma, a senadora se esbalda na galhofa, concedendo entrevistas em que insiste nas entrelinhas ter uma suposta “identidade ideológica” com o PMDB.

Kátia teve sua formação política acompanhando líderes e compondo partidos herdeiros do regime militar. Ela, como 99,99% dos políticos tocantinenses, passou pela escola de Siqueira Campos (sem partido), aliado de primeira hora dos militares. Integrou com muito prestígio o PFL, uma dissidência da Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido do regime pós-1964 e adversário figadal do PMDB, quando a legenda não tinha o “P” e representava a esperança do povo brasileiro por dias melhores, o que hoje, olhando para depois de 1985, é risível.

Esses partidos alinhados ou dissidentes do regime de ferro que subjugou o Brasil por 21 anos têm uma estrutura vertical de poder, do tipo “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Isto é, são as legendas do sistema de coronelato, da qual Kátia Abreu sempre foi legítima representante no Tocantins.

Sob esse sistema, o coronel fala, os outros escutam e vem o “cumpra-se”. Não há decisões colegiadas, elas são unilaterais.

Já os partidos de oposição ao regime de 1964, de esquerda ou centro-esquerda, têm uma estrutura de poder mais horizontal, pelo qual suas assembleias possuem muita força, os representantes são eleitos pela base e não resultado da imposição da força do coronelato. Dessa forma, as decisões são muito discutidas e, portanto, complicadas e demoradas. É verdade que a novela sem fim de Kátia com o PMDB, em parte, exprime isso. Se fosse o antigo PFL dela, a executiva nacional já teria baixado um “decreto-lei”, sem que ninguém precisasse ser ouvido.

Inclusive, foi isso que ocorreu quando a hoje senadora [na época deputada federal] tomou o PFL do senador João Ribeiro, para que o partido deixasse a União do Tocantins e ficasse com o governador Marcelo Miranda (PMDB), em 2005, aliado de ocasião de Kátia. A executiva nacional simplesmente assinou um decretou e Ribeiro foi arrancado do comando.

Por isso, é muito difícil para a senadora permanecer no PMDB. A cultura política dela é do tipo “eu falo, você escuta e cumpre as decisões que eu tomar”. Como fazer isso no PMDB? Impossível.

Para se ter ideia, Kátia tentou chegar por cima na legenda e não deu conta, mesmo tendo o apoio do então vice-presidente Michel Temer. Os líderes peemedebistas no Estado se recusaram terminantemente a receber a senadora em 2013 como ela queria, isto é, na presidência regional. Como precisava estar no partido para que a então presidente Dilma Rousseff (PT) a colocasse no Ministério da Agricultura — pasta do PMDB —, Kátia recuou e aceitou.

Contudo, durante a intervenção ocorrida para destronar o ex-deputado federal Júnior Coimbra, em junho de 2014, veio o golpe contra o partido no Estado — diga-se: típico do regime de 1964. A executiva nacional colocou a senadora como vice-presidente da comissão interventora, que tinha como presidente um senador de Mato Grosso do Sul, Waldemir Moka. Como esperado, é óbvio que ele não ficaria até o final das eleições no Tocantins, já que tinha que acompanhar as disputas em seu Estado. Então, o que ocorreu? Kátia se tornou presidente do PMDB pela via indireta, como ocorria em cargos públicos no regime militar, sob mais um erro terrível da cúpula nacional do partido, do qual deve se arrepender amargamente, com crises profundas de consciência.

Veio toda a estratégia da senadora para dominar o PMDB, mas ainda assim não conseguiu. O partido é cavalo selvagem, não se deixa subjugar facilmente. Ainda sobra nele e em seus membros mais históricos um resto daquele espírito que o fez lutar bravamente contra o regime dos generais. Foi justamente com o pouco do que sobrou dessa alma democrática que o PMDB se colocou na batalha contra uma herdeira da Arena que conseguiu se infiltrar por caminhos tortos em sua estrutura de poder.

Com muito custo, a executiva nacional acordou para o problema e devolveu o comando aos legítimos peemedebistas.

Na verdade, a grande tragédia do partido da redemocratização foi justamente não ter filtrado melhor os filiados logo que iniciou a Nova República. Como era o partido mais forte, todo mundo queria colar nele para até tentar apagar seu passado de aliança com a ditadura. Um deles foi o próprio ex-presidente José Sarney, que abriu a porteira para que todos os asseclas dos militares cerrassem fileiras nas hostes peemedebistas. Deu no que deu e o PMDB virou o que virou. Tudo quanto é podridão foi entrando, de Renan Calheiros para baixo.

Se do ponto de vista ideológico, o partido já deveria ter expulsado Kátia há muito tempo, pela ótica da moral, a senadora está com razão: o PMDB de hoje não dispõe de qualquer condição para expulsar quem quer que seja. No entanto, se a mantém em seus quadros com tudo que ela disse e continua dizendo, o partido não vai impor o mínimo de respeito para continuar existindo, ainda que tropegamente.

CT, Palmas, 13 de setembro de 2017.

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