ct nov grd
Cleber Toledo
Blog CT
Cleber Toledo é jornalista desde 1992, com passagens por jornais em Paraná, São Paulo e Tocantins. Fundador do Portal CT.

O mundo de Sofia

CLEBER TOLEDO, DA REDAÇÃO 06 de Dec de 2017 - 07h32, atualizado às 07h37
Compartilhe

Postagem da senadora Kátia Abreu no Facebook nessa terça-feira

A senadora Kátia Abreu (sem partido) usou a conta do Twitter dia desses para disparar toda fúria que carrega desde sempre contra o presidente Michel Temer. Disse da rejeição do peemedebista e desafiou com ironia o presidente nacional do PMDB, partido que a meteu porta a fora, senador Romero Jucá, a levar Temer para o palanque em Roraima, deixando claro que o homem que ocupa o mais alto cargo do País não será bem-vindo pelos aliados nas eleições do ano que vem.

Corretíssima. Sem pôr nem tirar. A coluna já defendeu várias vezes que Temer perdeu todas as condições de governar o País, não pela infantilidade do “golpe” pregado por petistas e ensandecidos afins, mas por receber de forma sorrateira o bandido da JBS no Jaburu e ter mantido com ele o tipo de conversa próprio do mundo da máfia. Deveria ter renunciado em maio, assim que a gravação veio à tona, mas faltou-lhe hombridade.

Contudo, Kátia também está fazendo um autorretrato inconsciente. Veja: se tirarmos o nome de Temer e mudarmos o contexto do plano nacional para a política do Tocantins, veremos a foto da própria senadora. Ela é extremamente rejeitada na política estadual e terá dificuldade para subir em palanques em 2018. Pode-se falar de modulações diferentes de antipatia da população, mas é inegável que ambos enfrentam desgastes que comprometerão sua atuação eleitoral no ano que vem.

Há um temor imenso nas mais diversas frentes do Estado em se coligar com ela e ter que enfrentar as encrencas costumeiras, que agora se agravam com o aprofundamento da imagem negativa da parlamentar. Em 2014, Kátia se salvou por mísero 0,87 ponto percentual, no que, eufemisticamente, poderíamos chamar de “erro" de um grande instituto de pesquisa — o mesmo que já deu o ar da graça por aqui há alguns meses e, ao que tudo indica, deve voltar no ano que vem, travestido de credibilidade, para sabotar novamente a democracia [até quando vamos assistir esse remake sujo?].

Depois das últimas eleições estaduais, a senadora perdeu o apoio do grupo que a projetou, o agronegócio, para ficar ao lado da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e, com isso, chegar a ministra da Agricultura. Este ano a tocantinense foi severamente vaiada num grande evento de ruralistas no Senado, demonstrando a rejeição total do segmento a seu nome. Pediram para que ela se retirasse da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e foi reeleita presidente da Federação da Agricultura do Estado (Faet) num processo de colégio eleitoral muito restrito e, digamos, diferente, que não reflete a opinião da categoria. A anemia política que sofre ficou manifesta na inauguração de seu escritório em Palmas, que reuniu, no início de julho, tão somente a curva descendente da política regional.

O atrativo que Kátia terá para compensar possíveis aliados de 2018 pelos transtornos que sua presença poderá causar é o imenso tempo de TV e de fundo eleitoral do conglomerado de partidos que está construindo para acompanhá-la: o PSD, cujo comando deixou para o filho para ingressar no PMDB e virar ministra; o PT, que deve vir por gravidade, e a sigla que a receberá até abril — diga-se, diante dessa expectativa, já existe muita angústia no Tocantins.

Nessa terça-feira, 5, pelo Facebook, a senadora fez uma autoafirmação para ver se ela própria e alguém mais consegue acreditar no que diz. "Se alguém desejar ser governador do Tocantins precisará disputar comigo e me derrotar, porque continuo firme no meu propósito”, avisou.

Este colunista passou dois dias em Araguaína, com políticos de todo o Estado, alguns até admiradores da senadora. Porém, mesmo esses afirmaram que, diante da pré-candidatura do prefeito Ronaldo Dimas (PR), vão apoiá-lo porque o alvo comum dos políticos tradicionais é derrotar o prefeito de Palmas, Carlos Amastha (PSB). Diziam eles que até o surgimento de Dimas, a única opção dos nomes colocados para enfrentar o pessebista era o governador Marcelo Miranda (PMDB), ainda que com o desgaste da gestão. A leitura que fazem é a que a coluna tem trazido há meses aqui: primeiro que, num Estado de carências gritantes como o Tocantins, governo é governo. Faz muita diferença, e ainda mais como será em 2018, com restrição total de uso de recursos de outras fontes que não sejam do fundo eleitoral recém-criado. Outro ponto apontado como favorável a Marcelo é a força da imagem pessoal: se dá bem com todas as pessoas, trata a todos com respeito, transita em quase todas as correntes e, por isso, tem facilidade de aglutinar.

Quando perguntado sobre Kátia, a resposta dos líderes era uníssona e concluída de supetão: é desagregadora. E a conversa morria aí.

Por isso, a senadora, ao fazer a postagem na rede social, não estava falando com o Tocantins, que sabe muito bem de suas poucas condições de competitividade. Kátia discursava para o plano nacional, sobretudo, para mostrar aos partidos interessados no seu passe o que vão ganhar tomando a coragem de levar um problema para os seus quadros.

Já aqui no Estado, ao verem a senadora tentar exibir para o Brasil uma força político-eleitoral que não tem, os líderes tiveram um acesso de risos virtuais. Nos grupos e nas mensagens de um para o outro, o que rolou foi o tradicional “kkkkkkkkkk” sob as postagens de matérias de sites com a autoafirmação da parlamentar.

A declaração de Kátia no Facebook fez este colunista lembrar de “O mundo de Sofia”, excelente livro do escritor norueguês Jostein Gaarder. Sofia buscava na experiência das leituras das cartas filosóficas que recebia o conhecimento do mundo que não tinha. Mas há uma diferença fundamental entre a ficção e a realidade. A senadora demonstra seguir na contramão da história de Gaarder e, mesmo com tanta vivência política, parece cada vez mais alheia ao mundo que a cerca e, assim, se aprofunda num crescente isolamento.

CT, Palmas, 6 de dezembro de 2017.

Comentários

Redação: Palmas, Tocantins, Brasil, +55 (63) 9 9219.5340, +55 (63) 9 9216.9026, [email protected]
2005 - 2017 © Cleber Toledo • Política com credibilidade
ArtemSite Agência Digital