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500 Anos da Reforma Luterana

RAIMUNDA CARVALHO, DA REDAÇÃO 21 de Jul de 2017 - 15h57, atualizado às 16h47
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WOLFGANG TESKE
É jornalista, teólogo e professor universitário em Palmas
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O ano de 2017 está sendo um período de muitas comemorações para os luteranos. Diversos eventos ocorrerão no mundo todo, para lembrar o momento em que o monge e teólogo da Ordem dos Agostinianos Dr. Martinho Lutero pregou 95 teses na porta da igreja de Wittenberg, na Alemanha, no dia 31 de outubro de 1517. Estas teses eram afirmações que contestavam veementemente a venda de perdão de pecados mediante o pagamento em dinheiro.

Martinho Lutero não é lembrado pelos luteranos como um santo e nem como o fundador da Igreja Luterana, mas, sim, como um homem enviado e escolhido por Deus para ser o reformador da Igreja Católica Romana ou da Igreja Cristã. Por este motivo, esta data é festejada como um marco da denominada Reforma Protestante ou Reforma Luterana.

É bom lembrar que a reforma proposta e executada por Martinho Lutero não foi um acontecimento isolado na Idade Média, mas faz parte de um processo histórico de fortes mudanças na Igreja Católica Romana, que, na realidade, já vinham ocorrendo há quase duzentos anos.

Na Inglaterra, em 1376. o doutor John Wycliffe, professor e reitor da Universidade de
Oxford, foi um reformador religioso e considerado precursor das reformas religiosas que sacudiram a Europa no final do século XV e XVI. Para Wycliffe havia um grande contraste e incompatibilidade entre o que a Igreja praticava, norteada pelas diversas normas do papado, dos ensinos de Jesus e seus apóstolos. Por este motivo, contestou contra o sistema de venda de indulgências e outras práticas que considerava abuso e denunciou isto ao publicar 24 teses, em Oxford, no ano de 1376.

Wycliffe dedicou grande parte do seu tempo para escrever muitos textos e obras, nas quais asseverava que as Escrituras Sagradas eram a única lei da Igreja. Além disso, traduziu a Bíblia do latim para o inglês, para que o povo pudesse entender as Sagradas Escrituras em sua própria língua. Isto lhe rendeu uma forte oposição por parte do alto clero, das ordens ricas e do papado. Mesmo sendo advertido e decretada a sua prisão por cinco ordens papais, nenhum mal lhe ocorreu, porque foi protegido pela nobreza. Entretanto, o Concílio de Constança (1414-1418), o considerou um herege e ordenou que os seus ossos fossem exumados, queimados e, por fim, jogados no rio Swift.

Os escritos de Wycliffe influenciaram outro pré-reformista, Jan Huss,do Reino da Boêmia, localizado na que atualmente é a República Tcheca. Huss estudou na Universidade de Praga, onde recebeu o grau de bacharel em teologia e mestre em artes. No ano de 1401, se tornou o reitor da Universidade. Jan Huss, pregava com veemência contra as indulgências e contra os abusos do papado. Sua obra literária é extensa, o que lhe rendeu duas excomunhões, além de ser julgado pela "Santa Inquisição" e queimado vivo no Concílio de Constança, no dia 06 de junho de 1415. Segundo consta na história, Jan Huss, antes de ser queimado teria dito o seguinte: "Vocês hoje estão queimando um ganso (Hus significa "ganso" na língua boêmia), mas após mim virá um cisne, e este vocês não poderão queimar". Para os luteranos esta profecia está associada a Martinho Lutero, que 102 anos depois pregou as 95 teses em Wittenberg, e para os espíritas este cisne é Alan Kardec. Contudo, se Huss de fato proferiu estas palavras e se isto é uma profecia não é tão importante.

Entretanto, o que podemos afirmar é que Lutero foi o homem certo, no lugar e na hora certa, em um momento histórico de profundas mudanças religiosas, eclesiásticas, econômicas, políticas e culturais na Europa, sendo, inclusive, o pivô de várias delas. Lutero, vasto conhecedor da história, da filosofia, da língua grega, do latim e do hebraico, da cultura germânica e dos sistemas eclesiástico e político, propôs uma mudança e reforma radical na Igreja Católica, da qual era monge e doutor em teologia. Uma reforma que, segundo ele, se fazia necessária, pois a forma como vivia a Igreja e o clero, além de comportamento mundano, estava propondo o perdão de pecados mediante a aquisição de indulgências, que não era outra coisa do que garantir um lugar no céu por um determinado tempo.

O próprio Papa Francisco afirmou, por ocasião do lançamento das comemorações dos 500 anos da Reforma Protestante, da qual participou, em outubro de 2016: "Vemos que a Igreja não era precisamente um modelo a imitar: havia corrupção, mundanismo, apego à riqueza e ao poder. Hoje, protestantes e católicos estamos de acordo na doutrina da justificação".

Martinho Lutero foi um intelectual, compositor e cantor e que fez com que os cristãos voltassem a cantar não em latim, mas em sua própria língua. Acima de tudo, foi um educador e preocupado com as crianças e os jovens, insistiu para que todos aprendessem a ler e escrever, tendo, assim, condições de interpretar as Escrituras Sagradas. Lutero traduziu o Novo Testamento do grego para a língua alemã e com a ajuda de outros intelectuais também traduziu o Antigo Testamento do hebraico e aramaico para a língua do povo. Além disso, escreveu muitas outras obras entre livros e cartas, podendo ser considerado um escritor de excelência. Foi um homem determinado a enfrentar qualquer perigo e perseguição.

Lutero e seus aliados, com destaque para o humanista Fhilipp Melanchthon, que fora seu aluno, soube usar a moderna tecnologia da época, a recém-criada imprensa de Gutenberg, possibilitando a disseminação de suas ideias por todo Império Saxônico e da Europa.

Conforme consta na história, após a excomunhão de Lutero, a Reforma provocou um movimento dentro da própria Igreja Católica, denominada de Contra-Reforma.
Em 1545, o Papa Paulo III, convocou o Concílio de Trento, propondo uma modificação na igreja para resolver os problemas de fé e a extinção da venda das indulgências. Este evento é considerado como o início da igreja católica moderna.

Dez anos mais tarde, em 1555, nove anos após a morte de Lutero, foi assinada a Paz de Augsburgo, na qual o luteranismo foi reconhecido oficialmente, e cada príncipe do Sacro Império Germânico teria o direito de impor aos seus súditos a religião de sua escolha.

Muita coisa mudou ao longo destes 500 anos, e cabe, neste momento, não apenas lembrar um passado distante, mas que o exemplo do Reformador nos sirva como inspiração para propor mudanças, que possam melhorar a sociedade atual que se diz moderna, entretanto é individualista, extremamente consumista e onde impera o ódio, a descrença e a desesperança.

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