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Mudança do sistema escolar promovida por Martinho Lutero

Artigo 11 de Aug de 2017 - 07h57, atualizado às 10h36
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WOLFGANG TESKE
É jornalista, teólogo e professor universitário em Palmas
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Um dos aspectos que merecem ser lembrados, debatidos e analisados durante as comemorações dos 500 Anos da Reforma Protestante, é a mudança do sistema escolar promovida pelo reformador Martinho Lutero, no século XVI.

Mas, afinal, quais foram as bases e os objetivos de Lutero ao propor e reivindicar a aplicação de novos métodos no processo educativo? Em que consistiu este novo modelo fazendo com que o reformador se tornasse uma referência e um dos pensadores que contribuiu para o desenvolvimento da sociedade moderna?

Tudo inicia quando Lutero observa e constata uma triste realidade, ao afirmar: "Se as universidades e conventos continuarem como estão, sem a aplicação de novos métodos de ensino e modos de vida para os jovens, preferiria que nenhum jovem aprendesse qualquer coisa e ficassem mudos". O sistema escolar vigente nesta época estava baseado em muitas punições físicas e pressões psicológicas, que resultavam em sofrimentos aos alunos. Este tipo de disciplina era aplicado na educação familiar e também na escola. Partindo de uma análise contemporânea, podemos afirmar que Lutero foi talvez o primeiro intelectual e isso há 500 anos, no final da Idade Média e início da sociedade moderna, marcada fortemente pelo renascimento, a se posicionar sobre um tema que atualmente denominamos de bullying. Este termo é utilizado para descrever atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados por indivíduo ou grupo de indivíduos, causando dor e angústia e sendo executadas dentro de uma relação de poder.

É interessante lembrar dois fatos antagônicos que ocorreram na vida de Lutero. O primeiro, ainda na escola elementar de Mansfeld. Desde cedo, Lutero era um menino aplicado, inteligente e certamente queria compreender tudo o que era dito nas aulas. Entretanto, o professor que apenas despejava conteúdos sobre os alunos, sem dar a mínima explicação, exigindo que os alunos memorizassem os ensinamentos, mesmo que isto não tivesse aplicação prática na vida deles, espancou o menino Lutero quinze vezes apenas numa manhã de aula. Talvez por esta razão, gostava muito mais de passear e apreciar os bosques e campos depois das aulas com o seu irmão Jacó.

O segundo fato ocorreu, quando já estava na adolescência, aos 14 anos, ao dar sequência nos estudos na cidade de Eisenach. O reitor João Trebonius, homem sábio e de vasta cultura, demonstrava ser um excelente pedagogo. Quando entrava na sala de aula, sua primeira atitude era tirar o chapéu em sinal de respeito para com os alunos e recomendava isto aos demais professores dizendo: "Pois que, entre estes jovens alunos, encontram-se alguns dos quais Deus poderá fazer honrado prefeito de um, chanceler de outro e ilustre doutor ou governador de ainda outro, embora de momento não os conheçais. É justo os honrardes"! Jamais imaginou que estava diante do futuro reformador da Igreja e da própria história.

Lutero nunca se esqueceu destes episódios gravados na sua memória, e, anos depois, ao rejeitar o método da vara excessiva escreveu: "Muitos mestres de escola
Martin Luther, em 1546, a partir de uma xilogravura de Lucas Cranach 
estragam muitos bons talentos com a sua truculência, impetuosidade e pancadaria, tratando as crianças como o carrasco e mestre do castigo tratam os ladrões. Quando a disciplina é aplicada com maior rigor e tem algum resultado, o máximo que se alcança é um comportamento forçado ou de respeito; no mais continuam sendo meras toras, que não têm conhecimento nem nesta nem naquela área, não sabem responder nem ajudar ninguém. É necessário que se castigue e discipline as crianças, porém sempre com amor".

O cerne do novo modelo de educação proposto por Lutero era formar pessoas que, livremente, servissem a Deus e ao próximo com amor. Baseado nas Escrituras Sagradas, afirma que a fé cristã é fundamental para que se tenha uma sociedade onde impere a justiça, para tanto, seria necessário que todos tivessem acesso à escola, o que não ocorria na época. Isto levou Lutero a escrever manuais, como o Catecismo Menor para as crianças e o Catecismo Maior para instrutores e professores, além de um documento escrito em 1520, denominado de Carta aberta às nobreza cristã da nação alemã sobre a Reforma da Cristandade; ainda outro escrito e publicado em 1524, Aos conselheiros de todas as cidades da Alemanha sobre o dever de fundar e manter escolas cristãs.

Em todos estes textos ele recomendava uma educação cristã totalmente reorganizada com novos currículos e métodos de ensino e aprendizagem e, principalmente, formas de financiamento e manutenção das escolas por parte do Estado. Desta forma, assegurava a implantação de escolas públicas, gratuitas, e que atendessem a todos, tanto meninos quanto meninas. Lutero, talvez revendo a sua própria história de vida, afirmou que não se deveria desprezar os estudantes pobres, pois estes poderiam se tornar grandes senhores.

A educação para Lutero, a partir de uma visão teológica e teocêntrica, era o meio de propagar e promover com eficácia o governo espiritual como o governo secular de Deus no mundo.

                     Fhilip Melancton
Partindo deste princípio, houve uma organização de um novo sistema de educação, auxiliado pelo professor Felipe Melanchton, da Universidade de Wittenberg, que chegou a ser apelidado de Mestre da Alemanha, e de João Bugenhagen líder da Reforma no norte da Alemanha.

O novo modelo proposto foi sendo assimilado e adotado em outros países, na medida em que o movimento da Reforma ultrapassa os limites geográficos da Alemanha e chega à Finlândia, Suécia, Noruega, Dinamarca, Boêmia, Morávia, que atualmente faz parte de uma região da República Checa, impactando também as mudanças ocorridas na Inglaterra, Escócia, Holanda, Suíça, em regiões da França, Áustria, Hungria e, posteriormente, ao mundo ocidental.

Este fato é uma clara demonstração de que o movimento da Reforma Protestante, mesmo sendo de caráter religioso, vai muito além, fazendo com que seus efeitos e desdobramentos, efetivamente, atingissem o processo histórico, social, político, econômico e cultural. Pois, a Igreja da época, até aquele momento detinha o poder em todas as instâncias, coordenando e reproduzindo um sistema de poder e governo de forma hegemônica, por séculos. Ressalte-se que, o sucesso da Reforma, através de todas as ações de Lutero só foi possível pela mudança na educação em todos os níveis escolares, ou seja, da escola elementar à universidade. 

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