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Especialista diz que novela vai aquecer comércio e turismo no Jalapão, mas pode prejudicar atrativos naturais

Presidente da Associação Brasileira de Turismólogos, Antônio Malan, defende que é preciso consciência ambiental e fiscalização para proteger o Parque Estadual, caso contrário, ele “está com os dias contados”

WENDY ALMEIDA, DA REDAÇÃO 24 de Oct de 2017 - 16h35, atualizado às 19h40
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Foto:  Raquel Cunha / TV Globo/Divulgação
Cena da novela “O Outro Lado do Paraíso” gravada nas águas transparentes da Cachoeira da Formiga, Parque Estadual do Jalapão
As belezas de Palmas e os encantos naturais do Parque Estadual do Jalapão agora podem ser apreciados diariamente, em rede nacional, através das cenas da nova novela da TV Globo: “O Outro Lado do Paraíso”. A produção estreou nesta segunda-feira, 23, com a expectativa de dar visibilidade aos atrativos turísticos do Tocantins. Em entrevista ao CT, o presidente da Associação Brasileira de Turismólogos e Profissionais do Turismo do Tocantins (Abbtur), Antônio Malan, falou da importância dessa divulgação, mas por outro lado, alertou sobre a falta de estrutura do Jalapão para receber um alto fluxo de pessoas. "Se não tivermos consciência de que é preciso proteger, o Jalapão está com os dias contados", disse.

“Eu fico temeroso porque com a divulgação da região vai aumentar a demanda. O fluxo de turistas vai aumentar consideravelmente, isso é inevitável. Agora, o Jalapão não está preparado para receber uma quantidade acima da capacidade de suporte dos atrativos”, reiterou o especialista.

Conforme o presidente da Abbtur, as dunas e os fervedouros, por exemplo, têm uma quantidade de visitação diária que precisa ser obedecida. Com o aumento da demanda, não se sabe se haverá o controle rígido dessas regras, para que o local não seja prejudicado.

“Essa operação de controlar a entrada de pessoas é uma coisa complicada, não é muito fácil de fazer, requer conhecimento na área e habilidade. Todo esse complexo de atrativos naturais precisa de uma fiscalização muito grande dos órgãos do meio ambiente e aí precisa de investimento público e privado”, pontuou.

O turismólogo alerta que é preciso consciência ambiental e união entre a iniciativa privada e o poder público para proteger o Jalapão. “Se não tivermos essa consciência de que é preciso proteger os atrativos naturais, aí nós vamos ter um problema sério: o Jalapão estará com os dias contados”, advertiu.

Promoção sem despesa
Para o presidente da Abbtur, o ponto positivo do Tocantins ser mostrado a nível nacional e também internacional (já que a novela acaba sendo veiculada em outros países) é o da promoção do turismo, sem a necessidade de investimentos do poder público e privado.

“Acho importante a gravação da novela porque ela promove o turismo sem que ninguém tenha despesa. Como mídia espontânea é a própria novela que vai mostrar as belezas naturais e as próprias condições dos atrativos. São imagens belíssimas. É um outro olhar que a televisão dá e isso vai fazer com que as pessoas tenham o desejo de conhecer o lugar”.

Antônio Malan destacou que o Parque Estadual do Jalapão está sendo consolidado como produto turístico, mas que ainda precisa ser “lapidado e “melhorado, para dar condições de receptividade”. “Nós temos que estar preparado para receber essa demanda”, reforçou.

Comércio
Com o aumento de turistas, o comércio nas cidades que fazem parte do Parque Estadual do Jalapão também deve ser aquecido. Atualmente, na região, existe uma oferta fixa composta de hotéis, restaurantes, bares, padarias, sorveterias e lojas de artesanato com o famoso “ouro do cerrado”, o capim dourado.

O turismólogo ressaltou que os comerciantes locais também precisam se organizar para atender o provável aumento da demanda. “A dificuldade para chegar alimento lá é grande. Tem dia que você chega e procura por uma água mineral e não acha, tem dia que não tem comida nos restaurantes. Então, tudo isso tem que ser pensado. Caso contrário, a capacidade hoteleira, dos comércios e dos atrativos não vai suportar o fluxo de turistas”.

Foto: Divulgação
Presidente da Abbtur Tocantins: “Nós temos que estar preparado para receber essa demanda”

Falta de infraestrutura
A falta de infraestrutura e de apoio turístico na região são, conforme afirma o especialista, os principais fatores que podem dificultar a recepção dos turistas, estimulados em conhecer a região pela visibilidade dada pela novela.

“Nós temos o problema de acesso, estradas sem asfalto, os donos dos atrativos são despreparados para receber os turistas, apesar de inúmeros esforços do governo no sentido de capacita-los”, elencou o dirigente da Abbtur Tocantins.

Segundo Malan, a maioria dos proprietários de áreas do Parque Estadual do Jalapão visam apenas e lucro e não investem em benfeitorias nos pontos turísticos. O problema, afirma o turismólogo, é que eles querem que o Executivo se responsabilize por todas as ações.

“A gente não vê eles fazerem em nenhum atrativo um banheiro, uma passarela, corrigir uma trilha que já sofreu erosão. Eles ganham muito dinheiro recepcionando os turistas, porém, eles não fazem nenhum benefício. Querem que o governo faça tudo, mas a iniciativa privada tem que dar a sua contrapartida”, cobrou.

Imbróglio Agrário
Além das dificuldades apontadas, ainda existe um impasse em relação as terras do Parque Estadual do Jalapão. Segundo Malan, a unidade de preservação foi criada, o Executivo chegou a publicar o decreto de desapropriação, contudo, os proprietários das áreas não foram indenizados.

“Apesar de ser parque, os donos dos atrativos continuam lá dentro porque não receberam o dinheiro da desapropriação”, explicou Malan. “Eles justificam que não podem fazer benefícios porque a terra não é mais deles. Entretanto, eles continuam explorando os atrativos turísticos”, disse.

Problemas antigos
De acordo com o presidente da Abbtur, os problemas de infraestrutura, de apoio turístico no Jalapão e de conscientização ambiental são antigos. “Eles vêm sendo elencados há muito tempo, não é de agora. O que precisa fazer é todos se unirem e entenderem que é preciso proteger os atrativos naturais do Jalapão efetivamente”, sugeriu Malan.

Ele mencionou ainda que já foram elaborados planos estratégicos sobre os diagnósticos turísticos da região, mas não foram colocados em prática. O especialista orienta, portanto, que as ações sejam retomadas pelo governo municipal, estadual e federal; bem como pela iniciativa privada.

Jalapão
O Jalapão ocupa uma área de 34 mil quilômetros quadrados no centro-leste do Tocantins, fazendo fronteira com os estados da Bahia, Piauí e Maranhão. A região encanta por suas águas abundantes, chapadões e serras com clima de savana, além da paisagem de cerrado, e é cortada por uma imensa teia de rios, riachos e ribeirões, todos de águas transparentes e potáveis.

A maioria dos atrativos está localizada nas cidades de Mateiros, Novo Acordo, Ponte Alta do Tocantins e São Félix do Tocantins. O lugar é ideal para contemplação da natureza, ecoturismo e prática de esportes de aventura.

A jalapa-do-brasil, que deu nome ao Jalapão, pode ser encontrada em toda parte. Uma de suas características é a produção de artesanato de capim dourado e seda de buriti, que se tornou principal fonte de renda para as comunidades locais e tem sido alvo de estudos e ações para garantir seu uso sustentável, ecológica e economicamente.

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