Tonolucro

De agora em diante, bonecas “Ritxoko” são patrimônio cultural do Brasil

Mulheres Karajá são homenageadas na entrega de certificados do Iphan na aldeia

PORTAL CT, DA REDAÇÃO 02 de Apr de 2012 - 13h50, atualizado às 21h58
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Fotos: Lorena Dias/CT

Autoridades durante solenidade de reconhecimento das bonecas como patrimônio cultural brasileiro

Lorena Dias
Da Redação

A cultura tocantinense ganha reconhecimento nacional agora que o Iphan registrou as bonecas Karajá “Ritxoko” como patrimônio cultural do Brasil. As artesãs foram as homenageadas na cerimônia de entrega dos certificados, o que foi motivo de muita alegria na Aldeia Santa Izabel do Morro, na Ilha do Bananal.

O artesanato é produzido pelas mulheres da comunidade e é fundamental para transmitir a cultura do povo para as crianças. Segundo a historiadora técnica do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan -GO), Maíra Torres Correa, o papel da mulher é fundamental já que “ ela é a principal participante e conhecedora deste processo, ela conhece a técnica e é ela quem atribui os significados e faz circular a informação do caráter simbólico do artezanato”.

Lú de Karajá é artesã desde pequena e estava muito orgulhosa com o reconhecimento do governo federal, enquanto assistia à cerimônia declarou emocionada: “Minha mãe era ceramista, e ela me ensinou, e eu ensinarei minha filha, Manchá Karajá, e meus netos, para nunca esquecer a minha cultura.”

As Ritxoko tem um valor cosmológico. É através da brincadeira com as bonecas que as meninas aprendem a ser Karajá, entram em contato os valores, as histórias e os mitos, da sua tribo, do seu povo. Para o superintendente do Iphan (TO), Erialdo Augusto Pereira, as bonecas são muito importantes para a comunidade. “O mais velho, quando faz o artesanato, está passando os valores e a cultura para o mais jovem”, disse.

A cerimônia só poderia homenagear as mulheres Karajá, já que são elas que fazem as bonecas em toda a sua beleza e simbologia.

São as mulheres Karajá que produzem as  bonecas Ritxoko em toda a sua beleza e simbologia [Fotos: Lorena Dias]
Da cerimônia participaram o cacique da aldeia Santa Izabel do Morro, Sansão Karajá; coordenador técnico local, João Weherreria, a presidente da Associação das Mulheres da Aldeia JK, Lenimar Karajá; o vereador de Lagoa da Confusão Iwararu Karajá; a secretária de Estado da Cultura, Kátia Rocha, a coordenadora de Cultura Indígena da Secretaria da Cultura, Narúbia Iny; os secretários da Agricultura, Jaime Café, e da Educação, Danilo de Melo, a presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa, Andrea Stival, e representantes do Iphan do Distrito Federal, de Goiás e do Tocantins.

Narúbia Iny ressaltou a força das mulheres que mostram o orgulho da cultura Karajá e que ensinam para os seus filhos as histórias. Ainda frisou que em todo tempo difícil são as mulheres que suportam e que lutam bravamente. “As mulheres Iny são reconhecidas hoje, os governos federal e estadual prestam uma homenagem a vocês. A aprovação das bonecas como patrimônio cultural foi muito importante para todo o povo Karajá”, disse Narúbia.

Nesse mesmo sentido, o secretário de Educação do Estado do Tocantins, Danilo de Melo, trouxe uma mensagem do governador Siqueira Campos (PSDB). “Os Karajá sabem cuidar e amar muito bem a terra, o sol e as águas, e ele [governador] quer que vocês nos ajudem, nós não índios que não sabemos amar como vocês a terra, o sol e as águas. Porque se não aprendermos logo com vocês, o planeta um dia não será bom para a humanidade.”

Danilo de Melo também falou sobre uma série de ações que serão implementadas para melhorar o acesso a educação e saúde na comunidade, e outras demandas principalmente relacionadas à fala da presidente da Associação das Mulheres da Aldeia JK, Lenimar Karajá.

A presidente lembrou o triste fato das mortes de jovens na Ilha do Bananal e falou sobre a falta de qualidade de vida nas aldeias, que já tiveram seus tempos de glória na ilha, recebendo grandes autoridades do Brasil, como os presidentes Juscelino Kubitschek e Getúlio Vargas, e do mundo, como o príncipe Charles.

 A secretária de Cultura do Estado, Kátia Rocha, ressaltou a importância do reconhecimento não só para o povo Karajá, mas para todo o povo tocantinense. E se disse empenhada em melhorar o processo de produção das bonecas buscando novas tecnologias de produção e queima de modo a torna-las mais resistentes, porém, sem interferir no seu valor cultural. “Nossa intenção, juntamente com a Fundação de Amparo a Pesquisa do Tocantins, é desenvolver um projeto para buscar tecnologia para melhorar a queima da boneca, porque ela é muito frágil, mas, claro, sem interferir na cultura local, só no processo de finalização”, explicou Kátia.

Coordenadora Salvaguarda do Departamento
de Patrimônio Imaterial do Iphan, Teresa Paiva Chaves

 
Exposição
As bonecas Karajá serão atração principal da exposição comemorativa do Dia do Índio, em 19 de abril, no hall do auditório do Palácio Araguaia. Foram catalogadas 201 peças para a exposição e registradas cerca de 2 mil imagens como resultado de uma pesquisa feita pela equipe da Secult em diversas aldeias Karajá em que elas são confeccionadas. A equipe era composta pelo artista plástico e coordenador de Artes Visuais da Secult, Antônio Netto, pela coordenadora de Cultura Indígena, Narúbia Iny, e pelo repórter fotográfico Adilvan. O projeto é executado em parceria com o Sebrae Tocantins.

“Esse trabalho, além de nos possibilitar catalogar o material para a exposição, foi uma verdadeira imersão na cultura indígena Karajá”, afirma Netto, lembrando que a boa receptividade nas aldeias possibilitou um contato mais próximo com os hábitos e costumes indígenas, bem como o acompanhamento da construção da Ritxoko.

Patrimônio
Sobre o conceito de patrimônio cultural, a constituição de 1988 postula que é aquilo que tem relação com as referências culturais e com a identidade do povo brasileiro.“Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira,“ afirma a constituição.

Segundo a coordenadora Salvaguarda do Departamento de Patrimônio Imaterial do Iphan, Teresa Paiva Chaves, é a partir deste conceito que o Iphan trabalha certificando o que é referência para as tribos indígenas, para os quilombolas, imigrantes, sempre tentando comtemplar a diversidade da cultura brasileira. “ Essa certificação, esse certificado que nós viemos entregar hoje é de uma manifestação tem relação com a identidade do povo do Tocantins e da identidade do povo Karajá, ” afirma a Teresa.

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