Tonolucro

Lutero: um monge agostiniano que encontrou a liberdade

RAIMUNDA CARVALHO, DA REDAÇÃO 04 de Aug de 2017 - 07h32, atualizado às 08h24
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WOLFGANG TESKE
É jornalista, teólogo e professor universitário em Palmas
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No momento em que se comemoram os 500 anos da Reforma Protestante é importante compreender quais foram as razões que levaram Martinho Lutero, um renomado aluno de direito e filosofia da Universidade de Erfurt, a mais bem conceituada da Alemanha, no início do Séc. XVI, a abandonar tudo, de uma hora para outra e se tornar um monge.

A decisão radical de Lutero, com 22 anos incompletos, de entrar para o Convento dos Agostinianos Mendicantes, fazendo votos de obediência, pobreza e castidade, ocorreu por uma série de fatores. Lutero nunca tinha cogitado na sua infância e adolescência de se tornar um monge. E surge a pergunta: por que esta decisão tão determinada e irredutível, contrariando enormemente o seu pai, além de seus amigos e superiores da universidade?

A infância na vida do ser humano é decisiva para a tomada de decisões na vida adulta, e não foi diferente com Lutero. Seus pais eram religiosos e se preocupavam com a espiritualidade dos filhos associado ao desenvolvimento intelectual e físico. Foi de seu pai que aprendeu a ajoelhar-se ao lado da cama à noite para orar e pedir a Deus que este menino nunca se esquecesse do seu Criador. Sua mãe, uma católica devota ensinou a seus filhos o que ela mesma havia aprendido que todos os monges eram homens santos, e, por esta razão, deveriam ser respeitados. Além disto, também ensinava que se alguém transgredisse as normas e regulamentos da Igreja, estaria transgredindo as leis de Deus e seria castigado.

A concepção de Deus nesta época era de um Deus irado e que castigava com severidade a todos os transgressores de suas leis. Deus era ensinado como um Ser vingativo e mada amigo das crianças. Por esta razão era necessário memorizar os Dez Mandamentos, a Oração do Pai Nosso, o Credo Cristão, reverenciar a Santa Sé e o papa como um ser superior lá na distante Roma, entendida como uma cidade sagrada. Também foi ensinado a tremer diante das relíquias consideradas sagradas, tais como, fragmentos de ossos e parte de roupas dos homens santos do passado, entre muitas outras.

Tudo isso fez com que Lutero, na infância, não gostasse de ir à igreja, pois sabia que iria se defrontar com aquele Deus pronto para castigar os maus. Bem mais
tarde, já como reformador, ao lembrar-se de sua infância afirmou: "Estremecia e tornava-me pálido ao ouvir alguém mencionar o nome de Cristo, porque fui ensinado a considerará-lo como um juiz encolerizado. Fomos ensinados que devíamos, nós mesmos, fazer sacrifícios por nossos pecados; que não podemos fazer compensação suficiente por nossa culpa, que é necessário recorrer aos santos nos céus, e clamar a Maria para desviar de nós a ira de Cristo". Este quadro de terror acompanhava Lutero desde a sua infância e despertou nele a vontade de conhecer mais sobre as Sagradas Escrituras. Qual não foi a sua alegria e espanto quando, ainda como estudante de direito e formado em filosofia, se depara com uma Bíblia escrita em latim na universidade de Erfurt. Foi exatamente ali, naquela biblioteca, que começou a conflitar com as verdades que descobria naquele livro e a realidade da prática religiosa e das doutrinas da Igreja.

Os conflitos existenciais do jovem estudante Lutero giravam a respeito da morte. Quando ficou gravemente enfermo, sentiu o seu fim chegando e o terror do Deus punitivo o atormentava, pois por mais que se esforçasse se via como um pecador que não merecia a graça divina. Sem esta, o seu destino seria a perdição eterna junto com o diabo no inferno. O mesmo suplício se repetiu quando caiu sobre o seu espadim de acadêmico de direito e quase se esvaiu em sangue. Em outro momento, um de seus melhores amigos morreu sem causa aparente e fez com que Lutero se questionasse sobre a sua própria situação.

Entretanto, um acontecimento viria a mudar completamente a vida deste jovem, precisamente no dia 02 de julho de 1505. Ao retornar da casa de seus pais para concluir seus estudos na universidade de Erfurt, foi surpreendido por uma violenta tempestade, momento em que um raio despedaça uma árvore do seu lado. Apavorado com tudo isto, se ajoelha de imediato em meio aos raios e trovões e invoca a proteção de Santa Ana acompanhada de uma promessa: "Ajuda-me, Santa Ana, e me tornarei monge".

Ao tomar esta decisão imaginava que, com este ato, encontraria a libertação espiritual. Entretanto, ainda assim, dentro do Convento, mesmo vivendo uma vida piedosa, orando e jejuando a todo o momento e indo além de suas próprias forças, não encontrava a liberdade e a paz. "Posso dizer com verdade que fui frade piedoso, cumprindo as regras da Ordem com tamanho rigor que me é permitido afirmar: Se algum dia entrou um frade no céu em virtude de sua vida de convento, eu seria um deles. Todos os meus companheiros de convento poderão dar-me este testemunho. Se tivesse continuado por algum tempo nesta vida, eu me teria matado com preces, jejuns, vigílias, frio, leitura e trabalho".

Os demais frades o admiravam pela sua abnegação, enquanto ele mesmo se afundava nos conflitos espirituais. Mais tarde, já doutor em teologia, liberto destas opressões e confiante na obra de Jesus que veio libertar a todos os que creem da perdição eterna, ele asseverou:

Quando Lutero percebeu que apesar de todo o seu esforço em cumprir as regras estabelecidas não o
libertariam da opressão espiritual, foi se confessar com o superior do Convento, Dr. Johann von Staupitz. Este momento é o início da transformação na vida deste jovem monge, pois ali encontrou uma luz ao ouvir de seu superior uma palavra de conforto ao dizer: "Habituai-vos ao fato de que Cristo é o Salvador verdadeiro e vós pecador real. Deus não usa de sombras chinesas e nem brincou ao entregar seu Filho por nós". A partir deste momento, ele começa a compreender as palavras de Paulo aos Romanos 1.17 "O justo viverá por fé". Este momento foi tão marcante na vida de Lutero que anos mais tarde ele escreve ao seu ex-superior: "Por vosso intermédio pela primeira vez nasceu a luz do Evangelho nas trevas do meu coração". 

A partir dali, a vida deste monge nunca mais seria a mesma. Em 1507 é ordenado sacerdote e em 1512 lhe é conferido o grau de doutor em teologia, quando declara: "Profiro publicamente um caro voto pela Sagrada Escritura e prometo, para a vida toda, estudá-la e pregar sua mensagem, e defender a fé cristã contra todos os hereges, por discussão e escritos. Que Deus me ajude".

Enfim, a liberdade estava conquistada. 


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