Tonolucro

A água foi embora

Crônica 11 de Sep de 2017 - 11h00, atualizado às 12h01
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STELLA MARIS ROSSELET
É formada em Letras e professora aposentada
[email protected]
Devido à penúria de água em várias cidades tocantinenses, sempre há entrevistas televisivas com pessoas desacorçoadas com essa situação. Talvez muitos espectadores já nem prestem mais atenção às palavras do povo sedento e desiludido.

Quanto a mim, estou sempre atenta ao que elas e os outros dizem e fazem.

Diante desse quadro desolador, há frases recorrentes, como, por exemplo:

-“ A água não chegou”

-“ A água não veio”

-“Faltou água”

Esses verbos, ditos tristemente, tocam a gente, já que demonstram a insatisfação das pessoas, a impotência diante de um problema vital.

No entanto, outro dia, as palavras de uma mulher mais idosa, a respeito da falta d’água, me chamaram a atenção.

Ao ser entrevistada, ela contou que se levantara de madrugada para pegar água em algumas garrafas, esperando poder contar com o precioso líquido para sua labuta diária. Aí, com uma carinha tristinha, bem decepcionada, ela disse:

-“Quando abri a torneira, a água foi embora”.

Fiquei pensando na diferença entre as frases dessa mulher e as dos outros...

Parece que quando se fala que a água não veio, não chegou, faltou é menos dura a realidade, trata-se de uma constatação desconfortável, rude mas que gera um certo conformismo. Agora, se a gente imaginar que água estava ali até de madrugada e foi embora, na horinha em que aquela senhora a buscava, parece brincadeira ou pirraça... Fugir justo naquele momento? Não é desaforo? E para onde ela foi? Para regiões privilegiadas da cidade, onde as pessoas não precisam se levantar de madrugada para pegar água?

Claro que o problema da falta d’água é incomensurável, de difícil solução, principalmente nesta época do ano em que a seca assola a nossa região.

No entanto, o problema não é novo. Sai ano e entra ano a falta d’água é assunto diário nesta época de calor intenso, sol abrasador.

Enquanto jorram as reclamações de tanta gente, talvez haja pessoas “que vão embora” com suas atitudes: que desistem de tomar decisões para hoje e para o futuro, de agir em consequência. Suas madrugadas, porém, são tranquilas, nem precisam sonhar com a chegada da água, das chuvas.

Cito as chuvas justamente porque a gente ouve alguns responsáveis pela distribuição de água, tentarem minimizar a situação atual, pretextando “que logo as chuvas vão chegar”. Pois bem, segundo as previsões meteorológicas ainda há muito chão até que o nosso chão tão seco e sedento seja regado com as benfasejas águas do céu.

Essas pessoas só podem estar de brincadeira! Não é pirraça mas que parece desaforo, parece.

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