Tonolucro

Martinho Lutero e a música

Crônica 13 de Oct de 2017 - 07h30, atualizado às 08h48
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WOLFGANG TESKE
É jornalista, teólogo e professor universitário em Palmas
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A música sempre ocupou um lugar especial em todas as civilizações humanas, em forma de arte, cultura e da religiosidade. Estudos já comprovaram que a música é uma das artes mais diferenciadas, pois tem um poder de influenciar sociedades inteiras, provocando diversas emoções, tais como: alegria, nostalgia, tristeza ou até raiva. 

Foi exatamente a música uma das molas propulsoras da Reforma Protestante, no século 16, na Alemanha e em toda a Europa. Nesta época, no âmbito religioso e espiritual, dominado pelo poder de Roma, ensinava-se a religião das obras, na qual, a graça divina, o perdão de todos os pecados e a salvação eterna era conquistado pelo esforço humano e pagamento de indulgências. A música nas igrejas era restrita unicamente aos monges e aos meninos do coral, que cantavam de forma monofônica em latim, sem acompanhamento de instrumento musical. Vozes femininas e dos leigos não eram permitidas.

Na realidade, ninguém compreendia o que era lido ou cantado nas igrejas, a não ser que tivesse estudado em algum mosteiro, convento ou escola, o que era para poucos. Para ter-se uma ideia da situação, por mais de mil e quinhentos anos, inicialmente, a música que se ouvia nas igrejas era o canto ambrosiano, criado por Ambrósio de Milão, no quarto século. Depois, o canto gregoriano foi adotado oficialmente nas missas, também monofônico e monódico, sem acompanhamento de instrumentos musicais. Sua origem é bem antiga, do primeiro ao quarto século, e tem raízes nos cânticos entoados nas antigas sinagogas, desde os tempos de Jesus Cristo, baseado nos salmos do Antigo Testamento, sendo agregado com elementos da cultura grego-romana. Este estilo musical é denominado de canto gregoriano pelo fato do papa Gregório Magno (540-604) ter feito uma coletânea destas músicas.

É neste contexto histórico-cultural que nasce Martinho Lutero. Na infância, ele sempre foi cercado de música, ouvia sua mãe cantarolando várias músicas seculares, provavelmente também ouvia e cantava o hino dos mineiros, profissão de seu pai e outras do gênero. Nas escolas em que estudou, sempre integrou os corais e na Universidade de Erfurt se dedicou aos estudos musicais. Lutero teve uma sólida formação técnica e teórica em música, tinha facilidade em tocar flauta transversal, e de forma autodidata aprendeu a tocar alaúde. Além disso, cantava e era compositor. Como monge aprendeu o canto gregoriano e o conhecia em todas as suas nuances. Este conjunto de fatores fez com que Lutero inovasse em todos os sentidos, inserindo a música como uma das principais ferramentas da Reforma Protestante.

O doutor Martinho Lutero valorizava a música contemporânea e declarou isto numa carta ao principal mestre do canto polifônico alemão, Ludovico Senfl, em 1530: -
"Lamento que a música secular tenha cantos e poemas muito bonitos, enquanto que a música sacra contenha muita coisa podre e fria". Apesar de não dançar, ele incentivava para que a música fosse acompanhada com danças. Com base nos seus escritos sobre a doutrina do sacerdócio universal dos crentes, teve a preocupação para que todos participassem da liturgia nas missas, meninos e meninas, homens e mulheres e estabeleceu três pilares: a língua utilizada nos cantos teria que ser no idioma alemão, as melodias teriam que ser simples e algumas idênticas às melodias seculares, e os textos teriam que ser das Escrituras Sagradas.

Johann Walter, um dos mais expressivos compositores da época, foi o grande parceiro de Lutero na elaboração da Missa Alemã, e também um dos mais significativos participantes na composição do coral do hinário luterano. Lutero fez uma releitura do canto gregoriano, retendo o que era bom e modificando o que se tornaria a grande novidade para a época, ou seja, o canto coral, acompanhado de instrumentos musicais, com a participação de toda a comunidade cristã. Em vez de apenas os monges e integrantes do clero participarem com o canto gregoriano, todos cantavam, e, por este motivo, Lutero é considerado o pai do canto congregacional.

A capacidade poética do reformador é revelada ao compor o seu primeiro hino, tanto a letra quanto a música do Um belo hino dos mártires de Cristo, queimados em Bruxelas pelos sofistas de Lovaina, em 1523, após receber a notícia da morte de dois monges agostinianos terem sido queimados na praça pública do mercado de Bruxelas, por haverem professado ensinamentos de Lutero. A partir daí, calcula-se que ele tenha composto mais de 130 hinos. Também começaram a surgir os primeiros hinários. Inicialmente, os hinos, com letra e música, eram impressos em folhas avulsas. As primeiras músicas e melodias corais foram compiladas em conjunto com Johann Walter. O primeiro hinário foi lançado em Wittenberg, em 1524, com oito canções, em seguida, outra coletânea, o Pequeno Hinário Espiritual, já com quatro vozes, e 32 hinos alemães e cinco latinos, e, assim, foram sendo compilados vários outros, sendo prefaciados por Lutero. Todo movimento musical que surgiu na Reforma Protestante está ligado ao doutor Martinho Lutero, que afirmou: - "Somente uma coisa podemos mencionar e que a experiência confirma: depois da palavra de Deus, a música merece o mais alto louvor".

As músicas e cantos luteranos se disseminaram muito rápido em todas as regiões, ao ponto dos adversários da Reforma espalharem a seguinte frase: - "O povo inteiro está cantando uma nova doutrina". Interessante observar que o povo não se limitava a cantar estas canções dentro da igreja, mas o fazia em qualquer lugar, causando espanto nos não luteranos. Além disso, mesmo Lutero sendo autor e protagonista deste novo movimento musical, as atenções não se concentravam nele como cantor e compositor, mas no próprio povo. o objetivo era difundir a palavra de Deus e sua mensagem central através da música e esta, por sua vez, deveria estar à disposição de todos e servir unicamente para o propósito de Deus. Para ele, a música deleitava a alma e dava vida às palavras do evangelho.

Os cristãos que iam aderindo à Reforma, com vozes vibrantes e com alegria entoavam os hinos, ao ponto dos adversários comentarem: - "É cantando que o povo adere à igreja herética; os hinos de Lutero estão atraindo mais almas do que seus escritos e sermões".

Entre todas as composições de Lutero, a que mais se destaca é o Hino Castelo Forte, também conhecido como Marselhesa da Reforma, composto em 1529, baseado no Salmo 46. Este é um cântico de luta e vitória, cantado em todos os momentos e que permanece até os dias atuais como uma marca da Reforma Protestante e do luteranismo no mundo. A repercussão do Castelo Forte foi tão impactante que homens ilustres, artistas e músicos famosos o utilizaram em seus temas. O maior compositor da Inglaterra do século 17, Isaac Watts, considerado como o pai do hino inglês, foi influenciado pela música de Lutero. O luterano Johann Sebastian Bach, reconhecido como o maior compositor da música clássica de todos os tempos, compôs a famosa cantata BWV 80, com base no hino Castelo Forte, nas comemorações do bicentenário da Confissão de Augsburgo, em 1730. Quando foram celebrados os 300 anos da Reforma Protestante, em 1830, o compositor, pianista e maestro alemão Mendelssohn, influenciado pelo luteranismo e pela obra de Bach, compõe a 5ª Sinfonia da Reforma, baseada no hino Castelo Forte de Lutero, apesar de só ser apresentada dois anos depois, em Berlin, por questões políticas. Diversos outros músicos, entre eles, Haendel, que por ter influência luterana e calvinista deixou a sua marca com o famoso Messias, também conhecido como Aleluia de Haendel. 

A música e o coral luterano vêm atravessando séculos e continuam sendo uma das marcas do luteranismo e das comemorações do quinto centenário da Reforma Protestante em todos os continentes. 

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Redação: Palmas, Tocantins, Brasil, +55 (63) 9 9219.5340, +55 (63) 9 9216.9026, [email protected]
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