Àqueles que colocaram os filhos na política não para servir à comunidade — a continuação das gerações na prestação de bons serviços públicos é louvável –, mas para aumentar a quadrilha e poder roubar mais recursos públicos. Este conto é dedicado a vocês.
O marido sorvia o café e mantinha os olhos fixos nas notícias do tablet, enquanto a esposa passeava o dedo pelo smartphone, conferindo os últimos fuxicos da rede social preferida e, claro, se seu discurso na Assembleia Legislativa, cujo melhor trecho postou, recebeu mais comentários positivos ou negativos.
— Gentinha!
Irritou-se com certos gracejos pendurados na publicação. Não havia dúvida: a mando dos adversários. Jogou o celular sobre a mesa e cruzou os braços, colando as sobrancelhas. Até ser surpreendida pela festiva invasão do filho à varanda. Ele se enroscou ao pescoço da mãe, disparou uma saraivada de beijos e efusivos bons-dias ao senador e à deputada.
— Bom dia, vereador! — responderam num uníssono orgulhoso e feliz.
A mulher, já esquecida das provocações da internet, foi dominada pelo largo sorriso flagrado pela filha e sua espirituosidade ferina. Após o seco bom-dia geral de sempre dispensado à família, a garota mirou a alegria do irmão e dos pais com o semblante engolfado num cortante sarcasmo.
— Quanto conseguiram defraudar desta vez?
— O urubu pousou… — fez o irmão, indiferente à estocada, acomodando-se na cadeira e debruçando a cafeteira sobre a xícara.
Já a mãe não gostava nem um pouco das corriqueiras alfinetadas que o trio recebia da moça.
— Esse seu humor é deprimente…
Alheio às domésticas trocas de farpas, o pai, pensativo, encarou o rapaz por cima dos óculos. Nem precisou abrir a boca. O vereador já esperava que ele buscasse se atualizar sobre o negócio do amigo de Recife. O pernambucano ligava todo dia interrogando sobre a dispensa de licitação para que sua empresa implantasse o tal software de gestão na prefeitura tocantinense.
— O prefeito está preocupado… A Procuradoria do Município resiste…
O pai indignou-se com o que ouviu.
— Uma operação de só dois milhões de reais ao ano! Uma mixaria! — E, com a mão suspensa, estalando os dedos para prender a atenção do filho: — Entenda… É um valor pequeno, mas garantirá duzentos mil para cada um de nós três nos primeiros doze meses e cinquenta mil nos anos seguintes em que o programa estiver rodando. É um dinheirinho bom, não podemos perder…
Havia assegurado várias vezes ao vereador e ao prefeito que se trata de um contrato sem o menor risco. Até porque o software é a melhor referência em gestão pública do país, implantado em centenas de municípios e, assim, voltava a afiançar, não existe nenhum outro compatível no mercado, o que dá total segurança jurídica à dispensa de licitação.
O filho ainda contrapôs que, para os procuradores, há similares, inclusive no Tocantins. E pela metade do preço.
— Essa gente é muito covarde! Frouxa!
Com um murro na mesa e veias salientes no pescoço, a mãe recordou que ela e o marido colocaram esse mesmo software em cinco das maiores cidades do interior, onde funciona perfeitamente, e, realçou, sem o mínimo questionamento de seu-ninguém.
— Uma graninha a mais para ajudar esta família de servidores públicos exemplares a manter seu elevado padrão de vida, né, mamãe? — tornou a filha num mover intermitente e irritante das pálpebras.
— Você e seus gracejos inconvenientes! — repreendeu a deputada, com as artérias ainda ameaçando saltar-lhe do pescoço.
Ignorando a nova investida da garota, o senador exigiu uma conversa definitiva do vereador com o prefeito. Afinal, argumentou, trata-se de um grupo sério, que nunca deixou de honrar os acordos firmados, parceiro de anos da família e, advertiu, essa relação não pode ser manchada agora por falta de pulso.
— Além do mais, é dinheiro na mão, sem nenhum contratempo… Não entendo o medo desse prefeitinho mequetrefe…
O rapaz mordeu o pão de queijo e, em voz pastosa, prometeu que pediria audiência naquele mesmo dia. O pai, não plenamente convencido da determinação do filho, ainda insistiu que esses pequenos ganhos extras também são importantes para financiar os projetos futuros daquele lar que anseia por espaços cada vez maiores na política estadual. O jovem fez sinal de rendição, mostrando-se ciente da incumbência familiar que lhe era imposta.
A secretária interveio fincando os tacões barulhentos sobre os azulejos e anunciou à deputada o prefeito Joaquim Serrano, do sudeste do Estado, que queria falar-lhe ao telefone.
O aliado derramou-se em elogios à sua líder pelo discurso na Assembleia que acabara de assistir nas redes sociais. Não se cansava de enaltecer as palavras eloquentes e a fala potente que só uma parlamentar com a envergadura dela poderia sustentar. A defesa intransigente da moralidade pública e da boa versação dos recursos dos contribuintes, suspirou o prefeito, incute ânimo renovado em todos os que a seguem e a têm como exemplo.
— A senhora nos enche de orgulho e nos faz acreditar que a boa política ainda é possível!
A mulher já não se lembrava de programa de gestão pública, do prefeito titubeante emperrando uma transação vantajosa, nem das insolências da filha. Aproveitou para dar a boa nova ao fiel correligionário: as emendas que havia destinado à vaquejada e aos shows programados para o município dele no mês seguinte seriam liberadas pela Secretaria da Fazenda nos próximos dias.
— Claro, amigo! Faço questão de comparecer à abertura, e quero elogiar de público o belo e competente governo que você está fazendo…
Avisou que seu chefe de gabinete o procuraria pessoalmente para discutir a agenda e, pontuou numa fala cifrada, também os depósitos do que acordaram que caberia a cada um dos recursos para a festa. O prefeito, empolgado com a excelente notícia, realçou uma última vez a satisfação de compor fileiras com líder tão zelosa com seus liderados, e a ligação foi encerrada.
Ao final da conversa, a deputada irradiava o mais absoluto contentamento por sentir que cumpria cabalmente seu papel de legítima representante daquela pequena e sofrida comunidade, e receber o devido reconhecimento por isso. Toda essa luz que refulgia e acendia em seu rosto o mais puro júbilo, no entanto, dissipou-se quando, ao se reconectar com a família no entorno da mesa do aprazível café da manhã, deu-se com a filha acarando-a com ar caviloso.
— Que foi?
— Não se envergonha?
— Você é muito ingrata… — enfureceu-se a mãe com suas carótidas encapeladas. — Come e se farta do trabalho duro que damos nesta casa e ainda quer se dar ao direito de nos julgar? — E arqueando o corpo sobre a moça num tom bem mais abespinhado: — Se há alguém aqui que deveria se envergonhar é você, minha querida!
O pai outra vez interrompeu a rusga entre as mulheres da casa para retomar o tema mais urgente. O amigo falou com ele na véspera. Estava perdendo a paciência com o prefeito e pensava em desistir do negócio. O senador acalmou-o, pediu só mais alguns dias e asseverou que não passava daquela semana o desfecho que todos queriam.
— Dei minha palavra!
Suplicou mais uma vez ao vereador que não deixasse de se sentar ainda naquele dia com o cretino do prefeito e fechasse a operação.
Para que o jovem se atentasse ainda mais à necessidade de a família estar preparada para os projetos futuros revelou o novo plano do casal que liderava um dos lares mais empoderados do Tocantins: dentro de três anos colocar a mãe na Câmara dos Deputados!
— Não aguento mais ficar quase a semana toda longe da minha esposinha… — o beicinho que imprimiu ao longo da frase tirou-o do figurino de homem sério preocupado.
— Bravo! — aplaudiu o filho. — É mesmo, mamãe? Que felicidade!
A mulher apertou a mão do marido com o brilho especial de volta aos olhos e confirmou ao rapaz com um decidido sacudir de cabeça.
— Que fofo! — retornou a moça, levando a mãe a revolver-se inquieta na cadeira. — Acho lindo esse amor: unidos até a morte nos negócios público-familiares… É meigo! — lá estava outra vez o irritante mover sucessivo das pálpebras.
Já sem nenhuma luz, a deputada levantou-se. As veias arroxeadas buscavam conter todo um Rio Tocantins que corria enfurecido pelo pescoço. Chegou a apontar o indicador trêmulo para a jovem, mas, depois de longa hesitação, apenas tacou o guardanapo sobre a mesa, deu meia volta e avançou raivosamente para o interior da residência.
Só então o senador voltou a atenção à filha, a quem estudou detida e calmamente. Em meio ao incômodo vácuo deixado pela brusca saída da deputada, a garota ainda forçava um riso cáustico em esgares travessos lançados ora para o pai, ora para o irmão, enquanto aspirava ruidosamente o café com leite pelo biquinho zombeteiro.
— Sabe aquele curso que você me pediu? O tal intercâmbio em Londres para aperfeiçoar seu inglês… — quis saber o homem ao fim do longo silêncio perscrutador.
Claro! Como ela esqueceria, ansiosa por ver-se longe da família por bons doze meses! Ainda em caretas traquinas lembrou o pai que tinha que se inscrever até a semana seguinte.
— Sem falta!
O senador pôs-se de pé, retirou o paletó do encosto da cadeira, acomodou o tablet sob o braço e foi deixando serenamente a varanda.
— Pois vamos poupar os contribuintes pelo menos dessa despesa excepcional com nossa família…
A moça quase engasgou-se com o absurdo que ouviu. Jogou a xícara e, aos tropeços, correu no rastro do pai. Sem ironias, caretas, bicos, olhares jocosos. Mas queixando-se.
Palmas, fevereiro de 2024.
Este é um texto de ficção. A história é fruto da imaginação do seu autor. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações é mera coincidência.