CLEBER TOLEDO
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Carta à cineasta tocantinense Eva Pereira, diretora e roteirista de “O barulho da noite”

Cara amiga Eva,

Saí tenso da première de seu maravilhoso “O barulho da noite”. O filme nos prende da abertura ao desfecho incrível que vocês deram a ele. Mexe com nossos nervos, provoca indignação e, sobretudo, leva à reflexão sobre as nossas abismais desigualdades sociais que impõem a famílias como a do personagem Agenor uma vida tão árida quanto a do cenário do longa. A temática é certeira: a violência doméstica e os abusos sexuais sofridos por crianças no ambiente onde deveriam estar mais seguras, suas casas.

O clima de ingênua harmonia que vai se convertendo em entorpecente tensão e nos enredando a cada cena é tão bem estabelecido que tudo à volta do espectador se dissipa. O desenvolvimento do enredo consegue nos tirar da mente todo o estresse que levamos para a sala de cinema. No meu caso, tinha um compromisso que me aguardava após o filme e estava preocupado em perdê-lo. Caiu no absoluto esquecimento e só tornou a me preocupar quando os caracteres do final de seu longa tomavam a telona.

Amiga Eva, meu campo é o do conto, e aprendemos com os mestres que os melhores textos são aqueles que, sem dizer, fazem o leitor enxergar e sentir. Foi o que seu filme me passou. Pouco se disse, mas tudo ficou tão cristalino, aflorou tantos sentimentos, que não há nada nele que possa ser acrescentado sem sobrar, ou que seja tirado sem faltar.

 Todo “O barulho da noite” me provocou sensações as mais tensas e as mais profundas reflexões, mas nada se comparou à marcha fúnebre composta pelo socar surdo do pilão, o metálico estalido do machado e o canto sombrio da ave agoureira, numa sinfonia ecoada pelo cerrado.

Querida e talentosíssima amiga, deixei a sala de cinema apressado pelo compromisso que tinha a seguir, mas fortemente impactado pelo que vi e senti. Minha movimentação pressurosa em direção à última agenda da noite foi sufocada pela dor que vocês tão vivamente imprimiram em meu coração, diante do tamanho sofrimento daquela mulher e, ainda mais, daquelas meninas. A ponto de só pensar nas crianças que deixei em casa, em como as amo, quanto desejo que fiquem em segurança e felizes e, diante disso, me veio a dúvida de que se realmente estavam bem, uma vez que ficaram sozinhas. E não estou falando de seres humanos, mas de meus dois Bassets, Romeu e Bitoca, que passam quase todo o dia a meus pés enquanto trabalho. Assim, minha querida, toda essa torrente de sentimentos e indignação que vocês despejaram sobre mim me fizeram deixar o compromisso de lado e correr para abraçar meus meninos.

Quando os tive nos braços só pensei nas crianças que naquele exato momento não desfrutam desse amor e desse sentimento de segurança, a base para uma vida feliz e para produzirmos homens e mulheres melhores, confiantes e dispostos a contribuir para a construção de uma sociedade mais justa. A garganta embargou e por pouco não caio no ridículo de um choro em meio à sala, enlaçado a meus moleques.

Você, minha amiga, colocou o Tocantins de forma gigante no cenário do cinema nacional com uma obra espetacular, quer pelo enredo e seu desenvolvimento, quer pela estética ou ainda pela temática, que não é municipal, estadual ou nacional, mas universal.

Obrigado por nos presentear com um filme magistral, que fez fulgurar a excelência da qualidade da cultura tocantinense.

Abraços a você, extensivos a toda a equipe, e os meus votos para que novas obras possam ser geradas por mãos e cabeça tão privilegiadas e tão socialmente sensíveis.

CT


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