CLEBER TOLEDO
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Carta a Derval de Paiva, o “Senhor Democracia” do Tocantins

Caro Derval,

Primeiro gostaria de agradecê-lo por sua companhia no jantar dessa quarta-feira, com seus companheiros e nossa querida Miriam Duarte. A entrada estava deliciosa, mas o prato principal, a democracia, como sempre, inigualável. Agora, amigo, imagina meu privilégio: degustar esse banquete político dividindo a mesa com o “Senhor Democracia” do Tocantins. Registra-se: um prazer que me alimenta, vez ou outra, há 20 anos. Pode estar certo, mestre Derval, saí desse jantar fartamente nutrido.

Tenho muito orgulho de tê-lo como amigo. Você, para mim, é, acima de tudo, sinônimo de resistência. Desde o início de sua vida pública no MDB, fez frente à ditadura, como todos os grandes homens e mulheres de seu tempo; e, no Tocantins, foi decisivo para a redemocratização tardia do mais novo Estado da Federação, movimento que já acompanhei de perto, muitas vezes até com certa cumplicidade.

Sem apego a cargos, se dispôs a abrir mão de sua vaga de vice-prefeito de Raul Filho em 2004 para que a frente antisiqueirista daquele tempo fosse a mais ampla possível. Quem se beneficiaria da grandeza desse seu gesto não entendeu a urgência do momento histórico. Bom para Palmas e para Raul, caro amigo, que tivemos a honra de contar com sua experiência e sabedoria no mandato.

Depois abriu mão da vice novamente para Edna Agnolin em 2008, como forma de trazer importantes partidos para a reeleição de Raul, entre eles o PDT e o PPS. Com sua inteligência política, ainda conseguiu levar para o palanque do então prefeito petista o deputado Eli Borges, que havia acabado de ser atropelado pelo Palácio na convenção do MDB.

Mesmo divergindo imensamente do PT no campo nacional, seu elevado espírito democrático já lhe alertava em 2018 para os tempos obscuros que se avizinhavam com a sombra de feitios fascistas começando a cobrir o Brasil. Sua veia de maior poeta da nossa política se inflamou na entrevista que me concedeu na época, ao me dizer: “Não conspiro contra o meu passado”. E que passado, amigo querido! Que história de vida e quantas lições nos traz nessas míseras cinco palavras da frase. Mais uma vez sua vocação para resistir ao arbítrio se impôs.

O que também me faz admirar em você, Derval, é que consegue manter o otimismo, mesmo diante da marcha da insensatez que nos cerca e da mentalidade medieval dessa gente tacanha que hoje nos governa.

Vou segredar algo que não lhe disse no jantar – contei a história, mas não minha reação emocional a ela. É sobre a postagem no Twitter do rapaz que, diante da pergunta sobre qual obra do “inominável homem das trevas” existia em sua cidade, escreveu: “O túmulo do meu pai no cemitério”. O que não revelei a você, claro, por vergonha, é que chorei copiosamente ao ler no final da tarde essa resposta do jovem.

Pensei nos 742 túmulos abertos em Palmas, grande parte deles graças à insensibilidade e à irresponsabilidade do “inominável homem das trevas”, ao seu estímulo à aglomeração, ao não uso de máscaras, à ingestão de remédios inúteis e ao atraso na compra da vacinas, porque, morbidamente, apostou na tal “imunidade de rebanho”.

Chorei porque pensei no Nilão, nosso querido Nilo Alves, amigo Derval, que se foi em março do ano passado. Se o “inominável homem das trevas” tivesse atendido a uma das dezenas de tentativas da Pfizer de garantir vacinas ao Brasil, Nilão estaria aqui, me enviando áudios no WhatsApp todos os dias com suas histórias; volta e meia, almoçando com minha família, como sempre fazia, quando tocava seu violão com o talento de poucos, e tomando banho no lago comigo.

Eu chorei, mestre Derval, porque, como o rapaz que nem conheço, constatei que esses 742 túmulos são as únicas obras do “inominável homem das trevas” na nossa amada Palmas.

Foi, assim, de muito baixo astral, mas sem querer deixar transparecer, que cheguei para o nosso jantar. Mas você, na altura dos seus 80 anos com espírito de 20, com a esperança que caracteriza o “Senhor Democracia”, me abraçou e disse: “Estou na campanha e otimista. Vamos vencer!” Foi uma injeção de ânimo, amigo. Você está longe de imaginar a energia que me transferiu naquele abraço e com essas palavras.

Depois do jantar, ao chegar em casa, fui ler o noticiário e soube da arruaça que os seguidores do “inominável homem das trevas” fizeram em Aparecida, tratando arcebispo e padres como “comunistas” – garanto, Derval, que essa gente é incapaz de compreender o significado desse termo –, porque os religiosos pregaram o fim do ódio, da fome e do desemprego.

Querido amigo, esse povo crucificaria Jesus novamente se voltasse agora. Afinal, nosso Mestre maior se cercaria de famintos, bêbados, prostitutas, marginais e de toda sorte de desvalido. Como Ele disse há mais de 2 mil anos, não veio pelos sãos, mas pelos enfermos. Naquela época, acusaram o Senhor de se autodenominar rei, agora seria condenado à cruz sob a pecha de “comunista”.

Contudo, Derval, a repercussão das arruaças de um monte de ricos no Santuário, muitos deles com enormes copos de cerveja na mão, foi a pior possível entre os brasileiros, profundamente rechaçadas por nosso povo. Foi como se chutassem Nossa Senhora pela segunda a vez. A primeira de forma literal e essa segunda, metaforicamente.

A máscara deles de “patriotas, gente de bem, que defende a família e cristã”, amigo, caiu. Para mim, mais um milagre que deve ser atribuído à Padroeira do Brasil, que jogou luz sobre as trevas, e, claro, a luz sempre prevalecerá.

O seu abraço, suas palavras de otimismo e essa conclusão a que cheguei, analisando a arruaça dos aloprados no Santuário, me animaram e me encheram de confiança de que a Democracia, sim, vencerá.

Por isso, senti que deveria escrever-lhe esta para agradecer sua amizade, exemplo de vida e as lições que sempre me dá, em meio à sua humildade extrema, marca dos homens de elevada sabedoria. Sua mensagem de esperança e a fé em dias melhores que reencontrei no infausto evento de Aparecida, pela ação de Nossa Senhora, me fortaleceram.

Mande meu abraço ao Samuel Bonilha, que sempre encontrava quando caminhava pelo centro, mas, depois que me mudei para a região norte, não mais o vi.

Saudações democráticas,

Cleber  


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