Apesar de a Operação Nêmesis, da Polícia Federal, ter sido deflagrada apenas nesta quarta-feira 12, a decisão do relator, ministro Mauro Campbell, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), é do dia 30 de outubro. A base dela foi uma suposta ação às escondidas, no dia 3 de setembro, data 2ª fase da Fames-19, que teria sido realizada pelo governador afastado Wanderlei Barbosa (Republicanos), a primeira-dama Karynne Sotero, familiares dos dois, servidores do Estado e policiais militares para retirar caixas, malas, bolsas e mochilas da residência da sogra do governador e mãe da primeira-dama, Joana Darc Sotero Campos, na 603 Sul, em Palmas.
INVESTIGAÇÃO MINUCIOSA
Numa investigação minuciosa, a PF levantou a movimentação de cada um dos alvos da operação desta quarta-feira. Um dos pivôs é o ex-secretário de Parcerias e Investimentos Thomas Jefferson, que é sócio de outro alvo, Rérison Antônio Castro Leite, filho de Wanderlei e superintendente do Sebrae. Os dois mantêm o Escritório Castro & Gonçalves Advogados Associados.
ALERTOU WANDERLEI E FAMÍLIA
Thomas Jefferson teria sido o responsável por alertar Wanderlei, Karynne, Rérison, o deputado estadual Léo Barbosa (Republicanos), também filho do governador afastado, e Rérison, da operação do dia 3 de setembro. De acordo com os policiais federais, o ex-secretário foi à residência de Wanderlei no meio da tarde do dia 2 daquele mês, véspera da 2ª fase da Fames-19, e voltou lá às 23h07 do mesmo dia, o que os agentes federais consideraram como “horário inusual” […] “a indicar a provável urgência do contato que seria, naquele momento, realizado”. “É digno de nota o fato de que Thomas Jefferson, apesar de ter o contato do governador Wanderlei Barbosa e de Karynne Sotero Campos, aparentemente, optou por não ligar ou enviar mensagens, nem mesmo para avisar que estava se deslocando para a residência do governador, provavelmente, com o escopo de não deixar quaisquer vestígios”, inferiu a PF.

SÓ FICOU 7 MINUTOS
Também chamou a atenção dos investigadores o fato de o ex-secretário ter esperado 17 minutos para ser atendido pelos moradores da residência, mas tê-la deixado não mais do que 7 minutos depois de ser atendido.
SAÍRAM APRESSADAMENTE
Após essa visita de Thomas Jefferson, passados aproximadamente dez minutos, Wanderlei, Karynne e sua filha Ysabela Sotero “saíram apressadamente da residência, evidenciando, portanto, a relevância da visita inopinada do advogado ao local”. Segundo a PF, eles se retiraram do imóvel por volta das 23h48 – portanto, minutos depois da visita de Thomas –, “tomando rumo ainda incerto, porém, com destino final a Fazenda Santa Helena, imóvel onde foram encontrados apenas o governador Wanderlei Barbosa e sua esposa Karynne Sotero”. “A dinâmica dos fatos evidencia que ambos passaram em um terceiro ambiente, deixando Ysabela Sotero Lustosa, juntamente com outros objetos, em um terceiro local, antes de se dirigirem à sede da Fazenda Santa Helena”, conclui a PF.
FOI PARA A CASA DE LÉO
Da residência de Wanderlei e Karynne, os policiais descobriram pelas câmeras que Thomas Jefferson foi para o condomínio onde mora o filho do governador afastado, Léo Barbosa. O ex-secretário chegou lá às 23h53. Thomas deixou o condomínio à 0h20, seguido por outros três veículos, “cuja vinculação com os fatos ainda não foi identificada pela autoridade policial”.

CONTATO COM OUTRO FILHO
Segundo a PF, após sair da casa de Léo, Thomas fez contato com o outro filho de Wanderlei, Rérison. “Ao analisar a movimentação de entrada e saída do Condomínio Alphaville 1, em Palmas/TO, foi possível observar que, de maneira bastante atípica, Rerison Antônio Castro Leite saiu à 00h43min de sua residência, somente retornando às 02h02min do dia da operação (03/09/2025)”, relatam os agentes.
THOMAS VOLTA AO CONDOMÍNIO
No dia 3, data, portanto, da operação Fames-19, Thomas Jefferson voltou ao condomínio de Rérison às 9h52, “ocasião em que as câmeras capturaram as imagens de outra caminhonete Mitsubishi/Triton branca, veículo que seria novamente avistado algumas horas mais tarde na residência da Quadra 603 Sul, pertencente à sogra do governador Wanderlei Barbosa Castro”.
SEM AS FEIÇÕES DE QUEM É DESPERTADO REPENTINAMENTE
Já na manhã do dia 3 de setembro, a equipe policial que cumpriu o mandado de busca e apreensão na Fazenda Santa Helena, em Aparecida do Rio Negro, encontrou Wanderlei e Karynne no local. “Ao ingressarem na sede, os policiais federais encontraram os investigados Wanderlei Barbosa Castro e Karynne Sotero Campos em uma das suítes. Foi destacado pela autoridade policial o fato de o casal já estar acordado e vestido com roupas de uso diário, sem as feições normalmente encontradas em quem é despertado repentinamente. Questionados, os investigados informaram que haviam recebido minutos antes uma ligação do chefe de segurança da residência do governador, informando acerca da chegada dos policiais, motivo pelo qual já estavam despertos”, diz o relatório.
NÃO COMPARECERAM
Quando as buscas acabaram, por volta das 8h30, o governador e a primeira-dama foram intimados a prestarem declarações na Superintendência Regional da Polícia Federal no Tocantins, em Palmas, às 14 horas do próprio dia 3 de setembro. Contudo, eles não compareceram para depor.
GOVERNADOR PRESENTE
Assim, para a PF, há “fortes indícios de que no horário aprazado, o governador se fez presente em uma residência vinculada à sua sogra, na Quadra 603, Sul de Palmas, orientando e coordenando o transporte de caixas, malas, bolsas e mochilas, no mesmo momento em que a Corte Especial deste Superior Tribunal de Justiça, ratificava as decisões proferidas”.

DENÚNCIA ANÔNIMA
Foi quando a PF recebeu uma denúncia anônima sobre essa operação na residência da sogra de Wanderlei, com “movimentação suspeita de veículos oficiais e pessoas investigadas carregando malas, bolsas, mochilas e caixas”. Duas equipes policiais compostas por três agentes de Polícia Federal foram até lá, mas só acompanharam à distância porque havia vários PMs à paisana armados. Os agentes federais tentaram descobrir para onde os veículos levavam essas caixas, malas, bolsas e mochilas, mas foram despistados. “A partir da diligência in loco foram realizadas imagens que puderam comprovar os relatos inicialmente recebidos, bem como levantar informações e dados necessários ao aprofundamento das apurações”, afirma o relatório.
VEÍCULOS ALUGADOS PELO ESTADO
Os veículos utilizados nessa operação, continua a PF, são alugados pelo Estado do Tocantins da empresa CS Brasil Frotas S/A. “Narra a autoridade policial que, além de constatar a movimentação de bolsas, malas e caixas no local, foi possível realizar a identificação de diversas pessoas de interesse, em especial, do próprio governador Wanderlei Barbosa”, diz o ministro Mauro Campbell ao relatar o caso. Ele também conta que participaram da operação a deputada estadual Cláudia Lelis (PV), Léo Barbosa, possivelmente Marcos Martins Camilo, o Marquinhos – chefe de gabinete de Wanderlei e apontado na Fames-19 como quem pagava as contas do governador afastado em espécie em lotéricas do interior –, e Yasmin Sotero Lustosa – filha de Karynne com Paulo César Lustosa Limeira, o PC, um dos pivôs da Fames-19.
GRAVIDADE DOS ELEMENTOS OBSERVADOS
Assim, para o ministro Campbell, “em face da gravidade dos elementos observados e da inequívoca antecipação dos atos ostensivos de investigação, mediante medidas de contrainteligência e possível violação de sigilo funcional, é fundamental que os atos de busca e apreensão sejam renovados em desfavor de Wanderlei Barbosa Castro, Karynne Sotero Campos, Yhgor Leonardo Castro Leite e Rérison Antônio Castro Leite, a fim de que, nesta segunda ocasião, possam efetivamente ser localizados elementos de convicção úteis para o avanço das investigações”.
OS ALVOS
Foram alvos de busca e apreensão, na maioria dos arrolados, os que participaram dessa operação para supostamente esvaziar a casa da sogra de Wanderlei. Confira os nomes:
1.Wanderlei Barbosa
2.Karynne Sotero
3.Léo Barbosa
4.Rérison Antônio Castro Leite
5.Thomas Jefferson
6. Marcos Martins Camilo, o Marquinhos
7.Coronel Wander Araújo Vieira
8.Rogério França Borges
9.Lucas Ferreira Maciel
10.Alan Rickson Andrade Araújo
11.William Nunes de Souza
12.Ruivaldo Aires Fontoura
13.Mauro Henrique da Silva Xavier Rodrigues
14.Antonio Pereira do Nascimento
15.Cláudia Lelis
16.Irineu Carvalho Amorim
17.Yasmin Sotero Lustosa
18.Joana Darc Sotero Campos
OUTROS PEDIDOS
Além disso, o ministro atendeu outros pedidos da PF, como busca e apreensão em um veículo Toyota/Hilux SW4, um dos que foram usados na operação de esvaziar a residência; a apreensão de montante superior a R$ 10 mil sem comprovação de origem lícita e de embarcações e aeronaves encontrados nos endereços de execução da busca domiciliar, desde que de valor igual ou superior a R$ 100 mil, “a fim de que os bens sejam retirados da esfera de disponibilidade dos investigados e, com isso, haja a possibilidade de utilização de tais bens para reparação dos danos perpetrados”.
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