Em um movimento que ressoa com ecos do protecionismo de outros tempos, o presidente Donald Trump anunciou ontem o pacote tarifário batizado de “Liberation Day”, impondo ao Brasil tarifa de 10% sobre todas as importações para os Estados Unidos, com sobretaxas agressivas sobre países como China e membros da União Europeia.
Trata-se de uma estratégia que, embora voltada ao fortalecimento da indústria americana, terá efeitos colaterais globais inclusive no Brasil.
A economia brasileira pode ser impactada por dois prismas: Por um lado, a intensificação das tensões comerciais entre Estados Unidos e China pode abrir oportunidades para exportadores brasileiros, especialmente no agronegócio, que pode se beneficiar da substituição de fornecedores. Por outro lado, a elevação do protecionismo norte-americano pode desencadear uma reação em cadeia, desestimulando o comércio global e pressionando os preços de commodities, afetando diretamente setores exportadores brasileiros.
Para o Tocantins, estado emergente no agronegócio nacional, o impacto sugere atenção estratégica. A soja, o milho e a carne bovina, pilares do PIB agroindustrial tocantinense, são commodities altamente sensíveis às oscilações nos mercados internacionais. Qualquer desaceleração nas importações globais ou desvalorização de preços pode afetar diretamente a arrecadação, os investimentos e a estabilidade do setor produtivo regional.
Além disso, a turbulência nos preços, impulsionada pelo mercado, pode encarecer a importação de insumos agrícolas e máquinas, muitos deles trazidos dos próprios EUA, aumentando os custos de produção no campo tocantinense. Em tempos de incertezas, o Brasil e estados como o Tocantins precisam estar atentos às oportunidades, mas, sobretudo, aos riscos silenciosos que medidas unilaterais como essa carregam. Afinal, o mundo globalizado responde em cadeia.
Mais do que uma questão econômica, o pacote “Dia da Libertação” acende uma faísca geopolítica. A história nos ensinou que guerras sempre começam com fricções localizadas. E, enquanto analistas e alarmistas sempre imaginaram uma eventual Terceira Guerra Mundial como uma batalha atômica, química ou biológica, poucos consideraram que ela poderia ser, antes de tudo, econômica e fiscal.Com tarifas como armas e déficits como justificativa, o mundo pode vivenciar um conflito silencioso de políticas comerciais agressivas, manipulação cambial e nacionalismo tributário.
Pelo jeito, ele já começou.
JÚLIO PRADO
É jornalista no Tocantins