Chamaram-no de Estreito de Ormuz durante séculos, mas hoje, diante das câmeras, o mundo ouviu outra coisa: “Estreito de Trump”.
O mapa tremeu um pouco, os cartógrafos sentiram cócegas na nuca, e os marinheiros, acostumados a ventos e correntes, riram para dentro, como quem escuta bravatas de taverna ditas em horário nobre.
O estreito, esse corredor de água cansado de petroleiros e ameaças, não respondeu.
Continuou apenas a oscilar marés, como quem sabe que nomes são boias de plástico boiando sobre correntes milenares.
Lá embaixo, os peixes ignoram presidentes, e a geologia não se curva a decretos.
Mas o episódio não é trivial. Não se trata apenas de um deslize verbal ou de mais uma excentricidade midiática.Há, por trás da tentativa de renomear o mundo, uma velha pulsão: a de transformar linguagem em domínio, palavra em território, discurso em soberania. Nomear, afinal, sempre foi um gesto de poder — dos impérios antigos aos algoritmos contemporâneos.
O Estreito de Ormuz, esse gargalo por onde escorre parte significativa do petróleo do planeta, não é apenas um acidente geográfico.
É um nervo exposto da economia global, um ponto de fricção permanente entre potências, uma zona onde o comércio internacional respira com cautela. Ali, cada palavra pesa — e cada erro ecoa.
Ainda assim, há algo de quase infantil na pretensão de rebatizar o que não se possui. Como uma criança que desenha fronteiras na areia, acreditando que o mar respeitará seus traços.
A língua tropeça de propósito — “Trump Strait, Estreito de Trump” — e o escorregão vira manchete, meme, fúria, fanfarra. O espetáculo substitui a substância.
O ego, nesse caso, é um navio cargueiro tentando atravessar uma passagem estreita: grande demais para a própria ambição, pesado demais para a própria travessia. E, como todo excesso, corre o risco de encalhar — não na geografia, mas na história.
Porque o tempo, ao contrário dos discursos, não se impressiona.
Ele sedimenta, desgasta, apaga. Impérios inteiros já tentaram impor seus nomes ao mundo — e o mundo, paciente, os absorveu, distorceu ou simplesmente esqueceu. O que fica não é o batismo, mas o fluxo.
No fim, quando a maré subir e descer mais uma vez, o estreito continuará sendo apenas passagem: corredor entre guerras, comércio, rezas e naufrágios. Um lugar onde navios cruzam, interesses colidem e a história insiste em não parar.
Os nomes, esses, passarão como passam os presidentes e seus trocadilhos triunfais. A água, indiferente, continuará apagando assinaturas invisíveis na superfície, uma ondulação de cada vez.
E talvez seja essa a lição mais incômoda: o mundo não precisa ser rebatizado para existir — apenas atravessado.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.















