Durante séculos, a mentira teve limites.
Precisava de um rosto, de uma voz para a repetir, de tempo para se espalhar. A verdade podia chegar tarde, mas acabava por chegar.
Hoje, porém, vivemos uma época diferente.
As eleições no Brasil decorrerão sob a sombra de uma inteligência artificial generativa já amplamente disseminada.
Nunca uma tecnologia tão poderosa esteve tão acessível. Nunca foi tão fácil fabricar a aparência da verdade.
Um documento falso pode nascer em segundos.
Uma fotografia pode mostrar aquilo que nunca aconteceu.
Uma voz pode pronunciar palavras que jamais foram ditas.
Um vídeo pode colocar um candidato, um juiz, um jornalista ou um cidadão comum no centro de um escândalo inteiramente imaginário.E o mais inquietante é que tudo isso pode parecer real.
As chamadas deepfakes já não pertencem à ficção científica. São uma realidade concreta. Em várias partes do mundo, têm servido para difamar adversários, manipular emoções, desacreditar instituições e semear a dúvida onde antes existia confiança.No Brasil, a Justiça Eleitoral já respondeu a esse risco com regras específicas para conteúdo sintético, exigindo rotulagem e impondo restrições ao uso de deepfakes na propaganda eleitoral.
Porque a grande arma da desinformação moderna não é convencer as pessoas de uma mentira. É levá-las a duvidar de tudo. Quando ninguém sabe o que é verdadeiro, a própria verdade perde força.
Quando qualquer prova pode ser considerada falsa e qualquer falsificação pode ser apresentada como prova, instala-se um nevoeiro moral e informativo onde prosperam os oportunistas e os extremistas.
A democracia vive da confiança.
Confiança no voto.
Confiança nas instituições.
Confiança na possibilidade de os cidadãos tomarem decisões informadas.
Quando essa confiança é corroída, não é apenas uma eleição que fica em risco. É o próprio pacto social que sustenta a vida democrática.
Por isso, preocupa a resistência de alguns sectores políticos à criação de mecanismos mais rigorosos de combate à manipulação digital. Invoca-se a liberdade de expressão, princípio essencial de qualquer sociedade livre.
Mas liberdade não significa licença para falsificar. Não significa o direito de fabricar realidades paralelas destinadas a enganar milhões de pessoas.
A liberdade floresce na verdade.
A mentira organizada é o seu oposto.
A inteligência artificial é uma das maiores conquistas tecnológicas do nosso tempo. Pode curar doenças, expandir o conhecimento e democratizar o acesso à informação.
Mas, nas mãos erradas, pode tornar-se também a mais sofisticada máquina de manipulação alguma vez criada.
O perigo não está na tecnologia.
Está no uso que dela fazemos.
E talvez o maior desafio das democracias contemporâneas não seja aprender a criar inteligências artificiais cada vez mais poderosas.
Talvez seja preservar a inteligência humana necessária para distinguir a verdade da ilusão.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.















