Senado, naquela noite, parecia mais uma bolha de ar rarefeito do que casa da República. Lá dentro, alguns homens e mulheres, encastelados em seus próprios interesses, decidiram falar em nome do país sem jamais ouvir o ruído das ruas.
Não votavam apenas um nome; ajustavam contas, antecipavam guerras, exibiam poder como quem mostra um troféu conquistado nos bastidores.
Jorge Messias foi o pretexto, não o centro da história. Na chapa fria do plenário, seu currículo se dissolveu em uma névoa de ressentimentos, vaidades feridas e estratégias eleitorais que nada têm a ver com a Constituição.
O Senado não rejeitou apenas um jurista; rejeitou a chance de agir como instituição de Estado e preferiu o jogo miúdo de quem olha o próprio umbigo enquanto fala em “independência” com a boca cheia.
Lula, por sua vez, descobriu de maneira amarga que não basta indicar; é preciso costurar. A escolha feita no tempo errado, sem ouvir direito quem controla a pauta, virou munição nas mãos de um presidente do Senado com projetos muito particulares.
Um homem magoado, com o ego arranhado por não ter emplacado o seu preferido, converteu a função pública em palco privado. Ali, a caneta que comanda a Casa valeu mais do que a legitimidade de milhões de votos depositados nas urnas.
Ao redor, a extrema direita riu por dentro e por fora. Transformou a derrota do governo em comemoração imediata, como se o placar do plenário fosse prévia da eleição que ainda está por acontecer. Confundiu deliberadamente o jogo curto do Senado com o fôlego longo da democracia. Esquece – ou finge esquecer – que, em outubro, quem vota não são esses poucos senadores cercados de conchavos, mas o país inteiro, com sua fome, sua memória e seus medos.
No fim do dia, o que Míriam Leitão captou, com precisão cirúrgica, é que a derrota foi pelos piores motivos: uma guerra política antecipada, uma decisão institucional contaminada, um Senado cedendo a interesses miúdos travestidos de grandeza.
O bolsonarismo comemora, o governo sangra, o presidente do Senado se sente vencedor. Mas o veredito que importa ainda não foi dado. Ele não sairá daquele plenário de luz amarela: virá das mãos anônimas de milhões de eleitores, muito longe das salas acarpetadas onde alguns acreditam, vaidosamente, ser donos do destino do Brasil.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.















