Às vésperas de datas comemorativas, é comum circularem textos sobre as virtudes e os defeitos de uma cidade. De um lado, narrativas sobre a construção heroica, os pioneiros, o crescimento vertiginoso da população e da economia, e por aí vai. De outro, as emergentes disfuncionalidades urbanas e sociais, os principais desafios do mercado de trabalho, da pobreza, das políticas públicas, da integração regional. As melhores análises são, geralmente, aquelas que se equilibram entre esses dois pólos.
É bem provável que vejamos alguns exemplares oscilando em algum lugar desse espectro no 20 de maio próximo, quando a mais jovem capital do Brasil completa seus 37 anos. Por isso, enquanto novo cidadão palmense (com título eleitoral finalmente transferido), tomei a liberdade de escrever sobre um assunto diferente, que me chama atenção desde que aqui pisei pela primeira vez, em abril de 2022 (o que era uma visita apaixonada acabou se transformando em casamento e mudança!).
Digo de uma cena que se repete com a insistência das coisas que, de tão frequentes, acabam parecendo naturais. A cidade inteira é povoada por rostos. Rostos ampliados e postos em evidência nos outdoors, permeando a paisagem urbana que parece ter sido tomada por uma sucessão de faces que prometem alguma coisa: beleza, saúde, sucesso, segurança, credibilidade, prosperidade, transformação. É raro que se anuncie “apenas” um serviço ou um procedimento. Anuncia-se a pessoa que encarna, vende e realiza.
Ao mesmo tempo, basta uma volta pelas quadras e avenidas para nos depararmos com outra figura onipresente da vida palmense: os “institutos”. Há de todos os tipos e a maioria se dedica a atividades que, em outros lugares, talvez fossem chamadas simplesmente de clínica, empresa, escola, consultório, etc. Aqui, porém, a palavra “instituto” paira com uma solenidade espantosa e, não raro, vem acompanhada do nome de pessoa. A marca vira instituição e a instituição, por sua vez, passa a emprestar ao nome individual uma espécie de aura pública, como se o empreendimento privado precisasse vestir uma roupa de relevância social.
Por que tanta foto de gente? Por que tanto instituto? E, sobretudo, por que tanto instituto com nome de gente?
A despeito do avanço do marketing pessoal individualizado, a maioria dos grandes centros urbanos brasileiros ainda guarda uma separação mais nítida entre a pessoa e a instituição, entre o profissional e a marca, entre o nome próprio e o serviço. Em Palmas, essa separação parece mais frágil. O outdoor oferece não apenas odontologia, advocacia, corretagem, harmonização facial ou gestão empresarial; ele oferece alguém e é como se, antes de confiar no serviço, devêssemos confiar na pessoa. É a inversão da lógica da eficiência mercantil iluminista.
Isso diz bastante sobre a formação social de Palmas, cidade nova, planejada, produto tardio de um ideal moderno brasileiro. Nascida no fim do século XX no alvorecer da “Nova República” como expressão de uma promessa estatal de racionalidade e planejamento urbano, a cidade é, sem dúvida, moderna desde a (e na) sua concepção. Mas é também permeada pelas formas de convivência, hierarquias e imaginários atravessados por lógicas de proximidade pessoal, prestígio individual, autoridade carismática e relações informais.
A cidade é moderna na planta e nos dispositivos tecnológicos, mas muito do que organiza sua vida cotidiana continua passando por formas personalizadas de reconhecimento. As relações definem, os nomes circulam, as famílias importam e as disputas políticas, econômicas e simbólicas se resolvem menos nas instituições e sim entre pessoas concretas, grupos, redes de lealdade, afinidades e rivalidades. Se bem seja certo que esse traço não é exclusividade palmense – o Brasil inteiro se (re)conhece no personalismo – aqui essa lógica parece mais exposta e menos filtrada, talvez porque a juventude da cidade ainda não tenha sido suficiente para sedimentar as instituições (e a impessoalidade). Não quer dizer que Palmas seja “atrasada” porque cultiva relações, nem de imaginar a modernidade como o ápice do anonimato burocrático, mas de notar a força da coexistência e de como sua configuração organiza a vida social na cidade.
O termo “instituto” talvez seja o melhor exemplo dessa síntese: remete a impessoalidade, formalização e respeitabilidade técnica, evocando um corpo organizado de cultura e conhecimento que ultrapassa o indivíduo. Mas, em Palmas, muitos desses institutos parecem fazer justamente o movimento inverso: elevam o indivíduo à condição de instituição, dando ao negócio privado a gramática da missão pública. A operação é moderna na forma, porque aciona a autoridade técnica, mas profundamente personalista no conteúdo. E soa especialmente funcional em uma sociedade marcada profundamente pela religiosidade – Palmas é a 3ª capital mais cristã e a 4ª mais evangélica do Brasil, segundo o Censo de 2022 –, onde transformar o próprio nome em instituto pode parecer quase natural, um gesto de distinção, ministerial, de quem se apresenta como preparado e ungido.
Esse individualismo se traduz na necessidade de construir a si mesmo como projeto e testemunho vivo de sucesso. Em Palmas, esse movimento encontra terreno particularmente fértil porque dialoga com uma sociabilidade já fortemente baseada em reputações pessoais e reconhecimento público. O que aparece travestido de futuro, inovação e protagonismo individual carrega, nas entrelinhas, formas arcaicas de distinção, prestígio e pertencimento.
Não por acaso, proliferam fórmulas em que o sujeito aparece ao mesmo tempo como profissional, empresário, mentor, inspiração e prova viva daquilo que promete. O médico vira referência, a esteticista vira doutora, o coach – seja lá o que isso significa – vira “tour de crescimento”. A vida social vai sendo colonizada por uma gramática de performance em que cada indivíduo precisa se apresentar como um pequeno centro irradiador de competência, encarnando publicamente o valor daquilo que vende e transformando a própria biografia em argumento de autoridade.
Por outro lado, esse personalismo convive com um fetiche da impessoalidade tecnológica. A mesma cidade que santifica o rosto em outdoors parece apaixonada por mediações automáticas. O porteiro é eletrônico com QR code e reconhecimento facial, enquanto o atendimento é por chatbot. O serviço (ou a pessoa?) é humanizado através das fotos de outdoors e desumanizado no contato real, porque inexistente. Vemos a foto do médico na fachada, mas não conseguimos falar com a clínica por telefone ou mesmo mensagens, restando o infindável labirinto do assistente virtual. Uma modernização intensa dos dispositivos, sem que isso produza necessariamente uma cultura impessoal no sentido moderno.
Palmas atualiza o exagero histórico do impasse brasileiro. De um lado, o desejo de modernidade – eficiente, tecnicista, planejada. De outro, as velhas gramáticas da pessoa, do carisma e da autoridade. É verdade que em poucos lugares do Brasil se é recebido de forma tão calorosa (literal e metaforicamente) – característica das cidades formadas por migrantes, especialmente no norte e nordeste do país, onde todos buscam novos afetos e reconhecimento fora dos círculos imediatos. E talvez seja por levar ao paroxismo coisas que, em outros lugares, aparecem mais diluídas, que Palmas impressiona tanto quem chega de fora, para o bem e para o mal. No fim das contas, os outdoors e institutos talvez sejam sintomas de uma cidade que se narra como moderna, mas cuja vida social continua fortemente ancorada no personalismo. Uma cidade onde o indivíduo ocupa cada vez mais o centro da cena, mas raramente como indivíduo abstrato moderno e, no limite, o cidadão do estado democrático de direito. Diferente disso, ele tem nome e marca. Em Palmas, a modernidade não aboliu a pessoa. Ao contrário, transformou a pessoa em instituição.
IAN PRATES
É pesquisador sênior do Anker Research Institute e Diretor da Iniciativa ARI-CEBRAP para Salários Dignos no Brasil. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, também colabora com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) na área de trabalho decente e cadeias de valor sustentáveis.















