“O coração tem razões que a própria razão desconhece.” (Blaise Pascal – 1623/1662 – matemático, escritor, físico, inventor, filósofo e teólogo francês. Prodígio, Pascal foi educado por seu pai).
Frase que atravessa os séculos porque fala de algo que permanece inalterado na natureza humana. Vivemos cercados pela lógica e pelas explicações racionais. Aprendemos desde cedo a pensar antes de agir. A razão tornou-se nossa principal conselheira. Foi a razão que organizou sociedades e permitiu que a humanidade alcançasse conquistas extraordinárias.
Mas existe uma parte da vida que escapa a qualquer tentativa de cálculo. A razão pode explicar como o coração bate, mas não consegue explicar por que ele acelera diante de certas pessoas. Pode descrever os mecanismos da memória, mas não consegue medir a intensidade de uma saudade. Pode enumerar as qualidades de alguém, mas não consegue justificar por que amamos uma pessoa e não outra. Há um território da existência humana onde a lógica caminha com dificuldade e onde os sentimentos parecem falar uma língua própria.
Conheço uma pessoa, já próxima dos oitenta anos, que guarda numa gaveta a última carta escrita por seu pai antes de morrer e essa pessoa contava com apenas 19 anos de idade, portanto, há 57 anos.
A carta está amarelada pelo tempo, as letras já um pouco apagadas. Qualquer observador racional diria que aquilo era apenas um pedaço de papel envelhecido. Mas, para ele, é muito mais do que isso. Naquelas linhas estão preservados sonhos, promessas, alegrias e uma vida inteira compartilhada. Sempre que abre a gaveta e relê aquelas palavras, seus olhos e seu coração se enchem de emoção. A razão não encontrava explicação para tanto apego. O coração, porém, compreende perfeitamente.
Algo semelhante acontece quando reencontramos um lugar da infância. A casa pode estar diferente, as árvores podem ter crescido, as ruas podem parecer estreitas e curtas. Ainda assim, ao pisarmos naquele espaço, somos invadidos por lembranças que parecem adormecidas. De repente, voltamos a ouvir vozes que o tempo levou, sentimos perfumes esquecidos e revivemos momentos que julgávamos perdidos. Não há lógica suficiente para explicar esse fenômeno. É o coração percorrendo caminhos que a razão desconhece. Talvez seja por isso que tantas das grandes decisões da vida não sejam tomadas apenas com a cabeça. Quando mudamos de cidade, quando escolhemos uma profissão, quando nos casamos ou quando estendemos a mão a alguém necessitado, frequentemente existe um componente invisível que ultrapassa os argumentos racionais. Nem sempre conseguimos explicar por que sentimos que determinado caminho é o correto. Apenas sabemos.
Os pais conhecem bem essa realidade. Quantas vezes sacrificam seus próprios interesses em favor dos filhos? Se analisassem apenas os custos, talvez não encontrassem justificativa. No entanto, continuam fazendo renúncias diariamente, movidos por uma força que não cabe em planilhas nem em tratados de economia.
O amor pelos mais próximos é uma das demonstrações mais claras de que existem razões que a razão própria razão desconhece.
A amizade também oferece exemplos semelhantes. Um verdadeiro amigo permanece ao nosso lado nos momentos difíceis sem esperar recompensa. Ele não calcula lucros nem vantagens. Simplesmente permanece. A razão talvez perguntasse: “O que você ganha com isso?” O coração responde: “Não se trata de ganhar. Trata-se de estar e ser presente.”
No entanto, reconhecer as razões do coração não significa desprezar a razão. A sabedoria está no equilíbrio. Um coração sem razão pode tornar-se impulsivo e imprudente. Uma razão sem coração pode tornar-se fria e incapaz de compreender a riqueza da experiência humana. A vida exige ambos. Precisamos da razão para orientar nossos passos, mas precisamos do coração para dar significado ao caminho.
Acredito que o maior desafio da existência seja justamente harmonizar essas duas vozes. A razão nos oferece segurança; o coração nos oferece humanidade. A razão ilumina a estrada; o coração nos diz por que vale a pena percorrê-la. Quando uma tenta silenciar completamente a outra, algo essencial se perde.
Pascal compreendeu isso muito antes de nosso tempo. Ele percebeu que nem tudo pode ser reduzido a argumentos, números ou demonstrações. Existem verdades que só podem ser sentidas.
Existem certezas que não nascem do raciocínio, mas da experiência profunda de viver. E talvez seja essa a beleza da condição humana: sermos capazes de pensar com a mente e sentir com a alma.
Aos que têm o privilégio de desfrutar de um final de vida com muitos anos vividos, poucos se recordam dos cálculos que fizeram ou das contas que fecharam. O que permanece são os afetos construídos, os gestos de amor oferecidos e recebidos, as amizades cultivadas, os momentos compartilhados e as emoções que marcaram a caminhada. São essas as razões do coração. Silenciosas, invisíveis e, muitas vezes, inexplicáveis.
E, com certeza, seja justamente por não poderem ser explicadas que elas sejam tão valiosas. Afinal, há coisas que a razão compreende. Mas há coisas que apenas o coração é capaz de conhecer.
“Quem tem ouvidos que ouça, quem tem olhos que veja!” (Já havia ensinado o Mestre dos mestres).
JOSÉ CÂNDIDO PÓVOA
É poeta, escritor e advogado; membro-fundador da Academia de Letras de Dianópolis.
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