Há reencontros que parecem festas.
Outros são verdadeiras celebrações da vida.
O de ontem foi muito mais do que isso.
Foi uma travessia.
As duas turmas pioneiras do Curso de Direito da UNITINS/UFT — a turma “Glaydon José de Freitas”, do período matutino e a turma “Adonias Barbosa da Silva”, do período noturno — reuniram-se para celebrar os vinte anos desde a formatura, numa confraternização marcada pela lembrança e pela emoção.
Entre os muitos rostos reencontrados, meus olhos ainda procuravam um que não estava ali. Faltou o abraço do querido amigo e ilustre egresso Luiz Rodrigues, que até recentemente honrou o serviço público como Delegado da Receita Estadual.
Mais tarde compreendi a razão da sua ausência: circunstâncias familiares delicadas exigiram a sua presença junto aos seus.
A vida, por vezes, chama-nos para lugares onde o dever e o afeto falam mais alto do que qualquer celebração. A sua ausência foi sentida, porque também ajudou a escrever essa história.
Fui convidado de honra.
Recebi esse gesto com profunda gratidão e emoção, porque também faço parte da história que aqueles homens e mulheres escreveram ao longo dessas duas décadas.
Na época em que essas turmas se formavam, eu exercia a função de primeiro coordenador do Curso de Direito da Universidade Federal do Tocantins.
Coube-me conduzir o curso justamente no momento mais delicado da sua história: a transição da UNITINS para a recém-criada UFT.
Foram tempos de coragem.Faltavam recursos, professores e até autorização para realizar concursos públicos. Muitas vezes, a única alternativa era convencer colegas a lecionarem voluntariamente, movidos apenas pelo compromisso com o ensino e pela convicção de que aquele curso precisava sobreviver.
Cada disciplina oferecida era uma pequena vitória.
Cada semestre concluído representava mais um alicerce na construção de uma universidade que ainda aprendia a caminhar.Ontem, ao reencontrar aqueles antigos alunos, compreendi que nenhum daqueles esforços foi em vão.
O cenário não poderia ser mais belo.
No flutuante da Praia da Graciosa, navegámos pelo imenso lago de Palmas, das onze da manhã às seis da tarde. Entre abraços demorados, fotografias, boa conversa, mesa farta e recordações que brotavam espontaneamente, percebi que a verdadeira viagem não acontecia sobre as águas.
Ela acontecia dentro de cada um de nós.
Vi promotores de justiça, defensores públicos, advogados, professores, delegados, magistrados, servidores públicos e tantos outros profissionais que honram a formação que receberam. Mas, antes de tudo, vi homens e mulheres que continuam unidos por uma amizade que o tempo não conseguiu desfazer.
Quando me foi dada a palavra, disse apenas aquilo que o coração me soprava:
— A maior alegria desta comemoração não são os vinte anos de formatura.
A maior alegria é que ainda estamos vivos para celebrá-los.
Seguiu-se um breve silêncio.
Não era o silêncio da ausência, mas o da consciência.
Todos compreenderam, ao mesmo tempo, o peso e a beleza daquela verdade.
Nestes vinte anos, a vida distribuiu vitórias e derrotas, alegrias e lutos. Alguns colegas partiram.
Outros enfrentaram doenças e desafios que ninguém poderia imaginar naquele dia da colação de grau.
Estarmos ali reunidos era, por si só, uma vitória sobre o tempo.
E o tempo, ontem, parecia brincar conosco.
Luiz, um dos egressos, celebrava exatamente o vigésimo aniversário do seu casamento.
Casou-se no mesmo dia da colação de grau, unindo, numa única data, duas alianças: a do amor e a da profissão.
Eu, por minha vez, chegava ao encontro trazendo comigo a alegria serena de ter celebrado, na véspera, 17 de julho, mais um aniversário de vida.
Percebi, então, que o calendário não guarda apenas datas.
Guarda destinos.
Enquanto o flutuante deslizava suavemente pelas águas do lago, pensei que a existência também é uma longa navegação.
O importante não é apenas alcançar o porto.
É reconhecer, de tempos em tempos, aqueles que embarcaram conosco no início da viagem e que, apesar das tempestades, continuam partilhando o mesmo horizonte.
Ontem não celebrámos apenas duas turmas.
Celebrámos uma história construída com coragem, idealismo, amizade e perseverança.
Ao regressar para casa, trouxe comigo uma certeza ainda mais profunda: um professor não mede a grandeza da sua missão pelos cargos que ocupou, nem pelos títulos que conquistou, mas pelos caminhos que ajudou a abrir na vida dos seus alunos.
Foi um dia memorável.
Daqueles que nos lembram que o tempo leva muitas coisas, mas jamais consegue apagar os vínculos construídos com dedicação, afeto e esperança.
Os egressos, como não poderia deixar de ser, levaram consigo as suas famílias: esposas, maridos, filhos e netos.
Eu também levei a minha companheira de todas as travessias, a minha eterna namorada, Kleice.
Porque as grandes conquistas da vida tornam-se ainda maiores quando podem ser partilhadas com quem caminha ao nosso lado.
Regressei para casa com o coração cheio e uma convicção renovada: o verdadeiro legado da educação não está apenas nos diplomas entregues, mas nas vidas transformadas, nas amizades preservadas e na memória afetiva que resiste ao tempo.
Esse é o legado que permanece quando o tempo continua a navegar.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.
















