A data que nasceu para oferecer descontos virou símbolo do consumo impulsivo e do endividamento das famílias brasileiras.
A última sexta-feira de novembro, conhecida como Black Friday, nasceu nos Estados Unidos como o pontapé inicial das compras natalinas, um dia em que o comércio “sai do vermelho” (“in the red”) para o “preto” (“in the black”) nos balanços contábeis. A ideia se espalhou pelo mundo e chegou ao Brasil por volta de 2010, com a promessa de grandes descontos e oportunidades imperdíveis. Mas, passados mais de dez anos, o que era para ser uma celebração do consumo consciente virou, em muitos casos, um palco de armadilhas comerciais e ilusões de desconto.
O brasileiro é amplamente reconhecido por seu perfil consumista e emocional. Pesquisa após pesquisa confirma que, ao receber um aumento salarial, a maioria tende a elevar o padrão de vida e não a poupar. Compra-se o carro novo antes mesmo de quitar o antigo, troca-se de celular todo ano, antecipa-se o desejo por status em vez de construir estabilidade.
Essa mentalidade, alimentada por um marketing que associa felicidade à posse e sucesso à aparência, faz com que o consumo deixe de ser necessidade e se torne identidade, e é exatamente aí que mora o perigo.
Esse comportamento, alimentado por uma cultura de marketing agressivo e pela lógica das redes sociais, transforma o consumidor em presa fácil de uma indústria bilionária que vive de estimular o desejo constante pelo “novo”.
Durante a Black Friday ou, como o mercado insiste em estender, a “Black November”, essa engrenagem gira em ritmo máximo. As empresas antecipam campanhas, criam senso de urgência e, muitas vezes, aumentam preços semanas antes para simular descontos no grande dia. O resultado é um cenário de “Black Fraude”, expressão popularizada para denunciar os falsos descontos e práticas enganosas.
O que muitos não percebem é que existe uma engenharia psicológica sofisticada por trás da Black Friday. A combinação de escassez (“últimas unidades!”), urgência (“só até hoje!”) e validação social (“todo mundo está comprando!”) ativa gatilhos emocionais que reduzem a capacidade crítica do consumidor.
E não faltam exemplos de abusos. Em 2024, o site Reclame AQUI registrou mais de 14 mil queixas durante a Black Friday, a maioria relacionada a propaganda enganosa, entrega não realizada e preços maquiados. Em 2025, uma nova pesquisa mostrou que 63% dos consumidores brasileiros não conseguem identificar golpes online feitos com inteligência artificial, especialmente em anúncios falsos nas redes sociais.
Essas práticas violam frontalmente o Código de Defesa do Consumidor, que impõe ao fornecedor o dever de transparência e veracidade da oferta (arts. 6º e 37 do CDC). A jurisprudência já é pacífica: a empresa responde objetivamente pelos danos causados, inclusive morais, quando a publicidade induz o consumidor ao erro.
No ambiente digital, influenciadores, celebridades e anúncios personalizados intensificam a pressão de compra. O algoritmo sabe o que o usuário deseja muitas vezes antes mesmo que ele perceba. Com isso, o consumo deixa de ser racional e passa a ser emocionalmente manipulado, reforçando um ciclo de insatisfação: compra-se para preencher vazios, não para suprir necessidades.
Não é coincidência que o endividamento das famílias brasileiras tenha atingido, segundo dados do Banco Central, recordes históricos em 2025. A promessa de “descontos imperdíveis” se converte, na prática, em parcelas intermináveis e perda de qualidade de vida.
Planejar é o antídoto contra a armadilha do impulso. Antes de clicar em “comprar”, o consumidor deve se perguntar: “Eu realmente preciso disso ou estou apenas reagindo a uma propaganda bem feita?” Monitorar preços com antecedência, verificar a reputação da loja, desconfiar de ofertas milagrosas e, principalmente, respeitar o próprio orçamento são atitudes que protegem mais do que qualquer antivírus.
Muitas vezes, os melhores preços aparecem após as festas, nas liquidações de virada de ano, quando o marketing perdeu força e o consumo volta à racionalidade. E, acima de tudo, nenhum desconto compensa o arrependimento de uma dívida desnecessária.
A Black Friday mostra o quanto ainda confundimos preço com valor e desejo com necessidade.
Vivemos tempos em que o consumo se tornou um espetáculo e o cidadão, seu espectador mais vulnerável. As vitrines prometem felicidade em doze parcelas, os algoritmos antecipam vontades que nem sabíamos ter, e o marketing transforma cada clique em uma tentação.
Mas a vida real cobra caro dos impulsos apressados. Cobra em juros, em arrependimentos, em noites mal dormidas e em meses de aperto. É quando percebemos que o desconto era ilusório, e que a conta, no fim, não é apenas financeira, é emocional.
Consumir menos, hoje, é quase um ato de resistência. É escolher propósito em vez de impulso, liberdade em vez de endividamento.
Porque o melhor negócio não está na prateleira: está na consciência de que viver com equilíbrio vale mais do que qualquer promoção.
ANDRÉ CAVALCANTE
Advogado especialista em Direito do Consumidor, com 17 anos de atuação na área.
















