Do alto da escadaria vejo muito além da multidão que se acotovela pelos três quarteirões cortados pela praça. Meus olhos contemplam o futuro. Os rostos invisíveis da massa amorfa que ri fácil a meus pés emanam alegria por uma conquista que não lhes diz respeito. Meros instrumentos para que a faixa agora pudesse atravessar-me o peito. Só a mim pertence o triunfo sobre aqueles que tentaram interditar o meu caminho. Esses, sim, importam. Tornaram mais apetitoso o sabor da vitória. Sublimaram este momento.
Penso no dia de amanhã enquanto distribuo acenos aqui e ali a inocentes úteis que se deitaram sobre o chão sujo para que meus passos fossem consagrados. O universo de possibilidades posto à minha frente é infinito. Aqui no pico, os abundantes tesouros estão disponíveis para quem dele se apoderou.
Ficaram no passado os pequenos movimentos que me permitiram iniciar esta longa e gloriosa jornada. Não preciso mais das notas frias com as quais abocanhava parcos recursos de reembolso de despesas na época de vereador. Um horror ter que praticamente implorar para que microempresários medíocres se dispusessem a uma comissãozinha em troca de inflar o valor constante do documento fiscal. Esmola!
Para também dilatar minha renda, não terei que apelar a fictícios gastos exorbitantes de combustíveis, artifício que já me fez simular consumo que daria para percorrer quase cinquenta mil quilômetros em doze meses, sem sair um único dia da cidade. Da mesma forma, se tornaram desnecessárias as diárias fantasiosas apropriadas sem que eu viajasse sequer para municípios vizinhos. Fim ainda da afrontosa estratégia de ser ressarcido por custos com material gráfico nunca impresso, bem como acabaram os rachas das verbas de divulgação com sites desconhecidos de jornalistas irrelevantes. Quanta humilhação passei por esta vida!
Na Assembleia Legislativa deixei para trás a necessidade de suportar os malandros que compravam emendas a irrisórios trinta por cento, submetendo-me às ordens de bandoleiros para enviar duzentos mil para um prefeitinho aqui, trezentos mil para outro ali. Essa afronta à minha dignidade chegou ao fim. Já determinei, inclusive, que não quero sequer ver a cara de porco do canalha do Osvaldão. Com a minha intervenção, os cachês dos shows das bandas de quinta do pilantra saltaram de cinco mil reais para incríveis cento e cinquenta mil. Mas jamais aceitou ajustar minha parte para cinquenta por cento, por dizer que, pela grande oferta desses recursos na Casa, os trinta por cento estavam bem pagos. Bandido ingrato!
Coisa mais aviltante cobrar a devolução dos salários de parentes e amigos. E quando davam de resistir? É degradante para um homem do meu nível ver-se obrigado a mandar engraçadinho no cano do revólver ao caixa eletrônico. O vagabundo do meu cunhado nunca deu um dia de serviço, sequer já pisou no Legislativo, mas queria apossar-se do pagamento integral. Esse fiz questão de encostar pessoalmente na parede e arranhar-lhe o pescoço imundo com a ponta da peixeira, antes de arrastá-lo para sacar o meu dinheiro. Ainda deixei-o com trinta por cento. Afinal, mesmo para meu desagrado, trata-se de parente.
Particularmente, sempre preferi utilizar os servidores fantasmas, não como o indolente do meu cunhado, mas aqueles que sequer sabiam que constavam da folha da Assembleia. As empregadas de casa, o chacareiro, peões da fazenda, eleitores das nossas periferias. Gente de muito bom coração, pura, que dá fé a qualquer palavra, que assina o que se põe à frente sem questionar. Dão-nos toda a sua confiança. Ainda assim, nunca foi prazeroso sujeitar-me a essas sutilezas para assegurar uma renda compatível com meus méritos.
E esses malditos promotores e portais de notícias? Na total falta de respeito, jogam o nome da gente a público por nada. Que rachadinha? É tudo meu! Eu lutei! Eu disputei! Eu paguei! O mandato é meu! Logo, meu salário é meu, os salários dos meus assessores são meus, os recursos para custear o gabinete são meus, os carros disponíveis são meus, e os uso como quero. Se eu comprei o mandato, paguei caro por ele, todas as regalias decorrentes são minhas. Por que devo dar satisfação a intrometidos?
Falei isso na cara do blogueiro espertinho que acredita que pode divulgar o que lhe der na telha. “É dinheiro do contribuinte”, atirou-me o pilantra, com pose de senhor-todo-defensor-da-cidadania-e-da-democracia. Quebrei-lhe uns três dentes para fazê-lo engolir os tais “direito de informar os cidadãos”, “liberdade de expressão”, “espírito público” e outras nulidades retóricas que vomita em seus textos na tentativa de tomar o que é meu… Legitimamente, meu! Eu paguei! E caro. Que porra de “interesse público”? Vai escrever essas merdas na casa do caralho!
Mas essas páginas de miudezas foram viradas. Estou no cimo da montanha, de onde miro a multidão servil e delirante que reverencia aquele que será seu rei por pelo menos quatro anos. E, como monarca supremo, agora que posso tudo mesmo. Acabou a mendicância, os pequenos ardis ignominiosos, insultantes, humilhantes. Fim da dependência da caneta alheia. Ela passou para esta mão, e assino o que eu quero.
Eu determino!
A partir de hoje as proporções tornam-se do tamanho que mereço, farão jus à dimensão da conquista que obtive, dignificarão quem realmente sou.
Nada mais de atirar-me sobre diminutas verbas de gabinete ou implorar comissões desprezíveis por projetos que garantirão milhões a terceiros. Sou o dono do Tesouro pelo próximo quadriênio. Todo recurso que entra é meu, e tenho o direito de canalizá-lo como quero. Para a minha conta, para o meu bolso…
O pessoal já me trouxe o escolhido que vai cuidar do fundo da Previdência. Nunca vi tanto dinheiro num só lugar. Esse parceiro chega com a missão de zelar é pela minha aposentadoria. Essa, sim, tem que ser boa. Lá na frente alguém pode pensar nos infelizes. Qualquer coisinha para eles está de bom tamanho, mas eu preciso de muito, e o instituto está abarrotado.
A saúde é prioridade para mim. Já filtramos quem vai entregar nota fiscal de remédio, nota fiscal de luvas, nota fiscal de máscaras. Meu lema é nota fiscal cheia e estoque quase vazio. A isso dá-se o nome de lucratividade. O sistema de saúde sempre foi ruim, não é novidade, e não sou eu quem vai resolver um problema tão complexo em míseros quatro anos. O povo precisa se espelhar em mim: um bom plano de saúde e, a qualquer mau sinal, voar para o Sírio-Libanês. Hospital público não presta mesmo. Isso é determinismo.
Não posso esquecer a educação. Área estratégica. A compra de uniformes vai me render uma grana absurda. E de equipamentos, então? Sem falar na construção e reformas de escolas. Altamente lucrativas. Nunca mais se verá tanto investimento num só mandato nesse setor tão importante para a sociedade.
Agora, sem infraestrutura não vou a lugar algum. Parafraseei Washington Luís. Se para ele, “governar é abrir estradas”, no meu caso é recapear e asfaltar rodovias. Grana sem fim, e dos gringos! Todas as regiões estão esburacadas. Precisarei de bilhões para colocar tudo em ordem… Quer dizer, de forma econômica, essa ordem deve durar uns quatro anos. Para ser necessário investir tudo de novo no segundo mandato. Afinal, todos sabem, né, buracos são a erva daninha do asfalto. Nascem a todo instante. Mais uma vez, a lucratividade…
Não tenho a menor dúvida de que serei um marco na Previdência, na Educação, na Saúde e na Infraestrutura. Mas por quê não também na Segurança Pública, na Assistência Social, no Esporte, no Meio Ambiente, na Cultura, na Comunicação e no Turismo? Onde houver dinheiro teremos ações. Este será um governo histórico, realizador, transformador, que vai mudar para sempre a minha vida!
Que alívio!, a cerimônia aporrinhante chegou ao fim.
Estou empossado.
Este é um texto de ficção. A história é fruto da imaginação do seu autor. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações é mera coincidência.
















