Há dias em que a política resolve vestir luto — não porque alguém partiu, mas porque alguém ficou. E ficou demais. Naquela sessão cinzenta, em vez de sepultar Carla Zambelli, os deputados federais escolheram cavar outra cova, bem mais funda, bem mais vergonhosa: a da própria Câmara dos Deputados.
Foi um gesto lento, quase ritual, desses em que ninguém quer parecer culpado, mas todos carregam um punhado de terra nas mãos. Não houve cortejo, nem discurso emocionado. Houve, isso sim, um silêncio cúmplice, aquele silêncio gorduroso de quem sabe o que está fazendo, mas finge que está apenas votando.
A cada “não” sussurrado ao microfone, um tijolo da instituição cai, lamentando: não me façam isso. Mas fizeram. Quando o veredito se confirmou, não era Zambelli quem parecia salva — era a Câmara que parecia perdida. Ela, que já cambaleia entre escândalos, acordos sombrios e tapinhas nas costas, decidiu dar mais um passo rumo ao abismo.
E deu com a convicção de quem acredita que ninguém está olhando. Mas nós estávamos. E, para piorar o enterro, veio o eco de fora: a votação que manteve o mandato de Zambelli é “ato nulo”, afirmou Alexandre de Moraes. “Por evidente inconstitucionalidade, presentes tanto o desrespeito aos princípios da legalidade, moralidade e impessoalidade, quanto flagrante desvio de finalidade.”
Um martelo judicial batendo na tampa do caixão, selando o que os deputados já haviam cavado — mas será que alguém ouviu, ou o silêncio cúmplice abafou até isso? Vimos a cena como quem assiste a uma tragédia em câmera lenta: primeiro o golpe, depois o sorriso de canto de boca, e por fim a pá batendo no solo, selando o enterro da credibilidade.
A Câmara morreu um pouco naquela sessão — não com o estrondo de um tiro, mas com a delicadeza covarde de um voto. E, mesmo assim, haverá quem diga que é “normal”, que “faz parte do jogo”, que “a democracia é isso mesmo”. Não. Democracia não é erro, é debate, é conflito — mas não é autodestruição. Democracia não sobrevive quando os guardiões decidem incendiar o próprio templo.
O mais trágico é que não faltaram flores no enterro. Havia elogios vazios, justificativas mornas, discursos ensaiados. Todos pareciam acreditar que estavam salvando alguém. No fundo, todos sabiam que estavam matando algo. E assim seguimos, país afora, carregando nas costas uma instituição que insiste em se enterrar um pouco mais a cada legislatura.
O Brasil, esse teimoso sobrevivente, ainda tenta respirar. A Câmara, porém, escolheu o contrário: trocou oxigênio por omissão. No fim do dia, Carla Zambelli saiu ilesa. Mas a Câmara não. Foi sepultada pelos próprios deputados — e o pior é que ninguém pediu velas, ninguém pediu missa, ninguém pediu perdão. Talvez porque, no fundo, saibam que o morto pode muito bem levantar-se amanhã, vestir terno, ligar o microfone…
……e morrer de novo.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.














