Chamam de Conselho da Paz aquilo que nasce em salas climatizadas, sob luzes de Davos, enquanto Gaza ainda cheira a pólvora e hospital improvisado. Nas telas, o projeto vem embalado em “renders” cintilantes de uma “Gaza reconstruída”, avenidas arborizadas, hotéis de vidro espelhado; nos escombros reais, porém, o vocabulário continua o mesmo: luto, desalojamento, silos de farinha bombardeados, água racionada.
Donald Trump anuncia um conselho para governar e “reconstruir lindamente” o território, cercado de líderes e consultores que jamais esperaram horas num checkpoint para ir ao trabalho.
É um clube seleto; nele cabem ex‑primeiros‑ministros, chanceleres, bilionários, estrategistas, mas não cabe a professora que perdeu a escola, o pescador sem mar, a criança que aprendeu primeiro a distinguir o som dos drones do que o das vogais.
Aí entra a frase de Jeremy Corbyn, cortando a encenação como um refletor aceso em plena noite: Trump não formou um “Conselho da Paz”; montou um Conselho da Ocupação.
O futuro de Gaza, lembra ele, não cabe a Trump, nem a Blair, nem a Netanyahu — cabe ao povo palestino, único convocado a enterrar os mortos sem jamais ser convidado a desenhar o mapa do próprio amanhã.
Os documentos falam em “autoridade transitória”, “comitê tecnocrático”, “governança responsável”; por trás da tecnocracia, no entanto, o desenho é velho: um protetorado com verniz humanitário, onde a paz é administrada por quem controla as fronteiras e os portos.
Chama‑se paz, mas exige desarmamento unilateral, presença militar prolongada, ameaças de “fim” caso o outro lado não obedeça; chama‑se conselho, mas funciona como diretoria de uma empresa que explora ruínas alheias em nome da estabilidade.
Talvez tudo se resuma a uma disputa em torno de um verbo: governar ou governar‑se. O conselho de Trump fala em governar Gaza, ditar condições, estabelecer prazos, supervisionar ministérios.
Corbyn, ao inverter a frase, lembra o óbvio enterrado sob relatórios diplomáticos: nenhum povo conquista dignidade por procuração; ou se governa, ou continua tutelado, mesmo que a tutela venha embrulhada em promessas de investimentos e conferências de paz.
Um dia, talvez, haja outro conselho reunido — não em um resort suíço, mas numa praça reconstruída de Gaza, debaixo de toldos de lona, com cadeiras de plástico e microfones falhando. À mesa, aí sim, sentarão os que hoje são apenas estatística: médicos, professores, refugiados que voltaram, jovens que só conheceram o mar cercado por bloqueios.
Os estrangeiros poderão estar lá, mas para ouvir mais do que discursar, ajudando a garantir aquilo que nenhum decreto vindo de fora consegue fabricar: a simples possibilidade de um povo decidir, em voz própria, que nome quer dar à sua paz.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.
















