Há frases que iluminam paisagens inteiras da alma. Martin Luther King Jr. escreveu uma delas, lembrando que “a injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar”. Seu chamado atravessa décadas, soprado para tempos em que, no noticiário, rostos de Gaza, Ucrânia, Nigéria ou Congo Democrático carregam o peso de mundos despedaçados. Muitos veem a dor à distância; poucos deixam que ela os toque de verdade.
Na alvorada de Gaza, mães buscam filhos entre escombros, enquanto homens e mulheres clamam pelo direito de existir. Na Ucrânia, cidades se despedaçam diante de uma guerra que parece não ter fim, e, entre o frio das sirenes, jovens perdem sonhos de futuro.
No Congo Democrático, a beleza selvagem da terra luta contra o esquecimento, enquanto pessoas fogem de conflitos que poucos querem, mas muitos ignoram. Parece longe, parece outro idioma, outro desespero. Mas King nos adverte: o sofrimento do outro é ameaça viva ao nosso próprio senso de segurança e justiça.
Não há fronteira capaz de conter o impacto da indiferença. A injustiça, essa fera inquieta, cruza mares, atravessa muros, alcança a sala de nossas casas e o leito dos nossos sonhos. Quando ninguém se importa, a injustiça ganha confiança e corrompe o que ainda resta de esperança.
O desafio é humano e universal. Ir além do conformismo diante do horror. Não se trata de resolver os conflitos do mundo em um só gesto, mas também de não aceitar o sofrimento alheio como ruído de fundo. Cada pequeno ato de empatia, cada palavra não conformada, cada recusa à apatia transforma-se elo dessa corrente vital, capaz de costurar o tecido rasgado da dignidade.
L.King pede coragem. Justiça nunca será destino pronto, mas caminho a ser trilhado. Atenção às pequenas opressões, às dores distantes, aos silêncios que se confundem com paz. Porque tudo importa, tudo ameaça ou fortalece.
No fim, os olhos despertos e os corações presentes reconhecem que a justiça é esperança sem pátria: ela une Gaza, Ucrânia, Nigéria, Congo e cada canto esquecido no mapa. Onde há humanidade, há território fértil para pontes, contra muros. Justiça é a semente que floresce quando lembramos que ninguém pode ser livre enquanto alguém é oprimido. Que o mundo escute, que o mundo olhe, que o mundo, enfim, se importe. Porque a casa da humanidade só existe inteira.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.
















