Donald Trump afirma que os Estados Unidos venceram a guerra contra Nicolás Maduro com uma arma digna de desenho animado: o “Discombobulator”, a desorientadora. Um nome perfeito para tempos em que a política global parece roteirizada por humoristas involuntários.
Enquanto estrategistas falam em guerra cibernética, energia dirigida e bloqueio de radares, o presidente surge na televisão e, com a naturalidade de quem anuncia um novo hambúrguer, revela ao mundo que dispõe de um botão secreto capaz de colocar mísseis russos e chineses de joelhos.
Não por acaso, ninguém consegue explicar exatamente o que essa arma faz, como funciona, quem a fabricou — ou sequer se existe com esse nome. Ainda assim, no noticiário e nas redes sociais, o “Discombobulator” já é real o bastante para virar meme, medo e manchete.
É curioso como a linguagem, às vezes, resolve aquilo que a geopolítica complica. To discombobulate, em inglês, significa desorientar, confundir, bagunçar a lógica do outro. Uma arma perfeita para uma época em que a principal tecnologia de guerra é a desinformação — essa nuvem tóxica que mistura fatos, versões, teorias conspiratórias e piadas no mesmo pacote indistinto.
O míssil pode falhar.
O meme, nunca.
Talvez o verdadeiro Discombobulator não esteja em nenhum laboratório secreto do Pentágono, mas no feed infinito onde um boato, espalhado em segundos, desorganiza eleições, acende revoltas, derruba reputações e fabrica heróis de ocasião.
O que é mais eficiente: calar o radar inimigo ou confundir a cabeça de milhões de espectadores?
Há, nisso tudo, o velho fascínio humano pelas armas milagrosas. Durante a Segunda Guerra Mundial, Hitler apostava nas Wunderwaffen, as “armas maravilhosas” que, num golpe de sorte tecnológico, inverteriam o curso da derrota.
Não inverteram. Mas a promessa da bala de prata permanece: um dispositivo capaz de eliminar a resistência do outro sem que seja preciso enfrentar os próprios fracassos políticos, económicos e morais.
No caso de Maduro, a narrativa da arma secreta é particularmente conveniente. Permite encenar um triunfo limpo: helicópteros heroicos, comandos impecáveis, nenhuma pergunta incômoda sobre soberania, direito internacional ou o destino de um país novamente arrastado para o tabuleiro dos outros.
Uma arma “desorientadora” não é útil apenas contra mísseis. É eficaz, sobretudo, contra consciências.
Enquanto isso, na vida comum, também vamos sendo discretamente desorientados. Um cidadão acorda, lê que existe uma arma misteriosa capaz de desligar “mísseis russos e chineses”, passa para um vídeo engraçado, depois para uma discussão sobre futebol, e logo para uma teoria conspiratória que garante que tudo foi filmado em estúdio.
Ao fim do dia, sobra apenas uma sensação difusa: algo grave aconteceu em algum lugar chamado Venezuela, mas é difícil saber exatamente o quê, por quê e com que legitimidade.
A política internacional transforma-se, assim, numa sucessão de cenas soltas, sem enredo claro, onde o espetáculo importa mais do que a compreensão.
A verdadeira função do Discombobulator, talvez, seja esta: garantir que o público não consiga distinguir uma operação militar de uma campanha de reeleição.
Às vezes, imagino uma versão doméstica do artefato. Um aparelho portátil, ligado na tomada da sala, capaz de neutralizar os “mísseis retóricos” que entram pela televisão, pelos telemóveis, pelas conversas de bar. Ao menor sinal de bravata geopolítica, ele emitiria uma onda de bom senso:
Atenção: esta frase contém mais marketing do que verdade. Use com moderação.
Claro que ninguém financiaria tal projeto. Armas que esclarecem não dão votos, não vendem contratos militares, não inflam ações da indústria bélica.
O mercado prefere dispositivos que confundem, embaralham, excitam a imaginação e legitimam aventuras militares embrulhadas em linguagem de videogame.
Fico, então, com uma imagem final: a de um engenheiro anônimo, em algum subúrbio qualquer, diante da sua bancada de trabalho, tentando construir a única arma que ainda nos faria falta — uma máquina de reorientar.
Em vez de desligar radares, ela religaria a nossa capacidade de ligar causas a consequências, ações a responsabilidades, operações militares a histórias de gente concreta.
Seria uma arma destinada não a capturar presidentes, mas a capturar a verdade que escapa por entre slogans e siglas — essa verdade desarmada que costuma ser o primeiro alvo de toda guerra.
Até lá, seguimos descendo o feed, entre bombas e piadas, enquanto o Discombobulator maior — o de um mundo em permanente distração — continua a trabalhar em silêncio.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.
















