O telegrama não chegou primeiro ao povo, mas o burburinho chegou antes de qualquer chanceler.
Lá de Washington, Donald Trump, o bilionário que vive entre arranha-céus e cercas, teria estendido a mão ao ex‑metalúrgico de São Bernardo para sentarem juntos num tal “Conselho da Paz” para Gaza.
Não é todo dia que o andar de cima chama o subsolo para ajudar a cimentar as ruínas que ele mesmo ajudou a rachar. Lula, esse retirante que virou presidente, conhece de perto a geografia da falta: chão rachado de sertão, fábrica barulhenta, mesa vazia de periferia.
Quando ouve “Conselho da Paz”, não pensa em protocolo, pensa em gente: na criança soterrada em Gaza, na criança desalojada em Petrópolis, na criança que ainda acorda sem café da manhã em qualquer esquina do mundo.
Ele sabe que bomba e fome falam dialetos parecidos: explodem sempre no colo dos mesmos.Trump procura Lula porque descobriu, tarde, que prestígio não se imprime em dólar nem se arma em porta‑avião.
Prestígio se conquista quando um país que já foi pária volta a ser ouvido na ONU, quando um governante fala de paz sem esquecer a palavra pão.
Por isso, em meio a generais, lobbies e planilhas, alguém lembrou: “Talvez seja hora de chamar quem já venceu uma guerra silenciosa contra a fome”. Gaza, ferida aberta no mapa, é hoje um espelho rachado onde o mundo evita se olhar.
Ali, cada casa destruída é também um veredito contra a indiferença global, esse crime sem tribunal.
Ao convidar Lula, o império parece dizer, com a boca meio torta, que precisa do olhar de quem já viu a violência da miséria por dentro e não apenas nas telas em alta definição.
O Conselho da Paz pode nascer como palco ou como ponte.
Como palco, servirá a discursos enfáticos, fotografias ensaiadas e comunicados vazios, com a guerra continuando ao fundo, discreta e eficiente.
Como ponte, exigirá de Trump, de Lula e de qualquer outro convocado a coragem rara de enfrentar não só os mísseis, mas os lucros que dependem deles.
Lula leva para essa mesa mais que currículo; leva cicatriz.
Leva o passado de preso político em um país capturado pelo ódio e pela mentira judicial.
E leva o presente de presidente novamente eleito, agora tratado como voz necessária onde antes era chamado de problema.
Essa “biografia torta”, remendada, é justamente o que o torna capaz de conversar com vítimas e algozes sem perder o eixo.
É irônico: o homem que já foi proibido de sair do país, agora é chamado a ajudar a reconstruir um pedaço dele.
Quem um dia foi empurrado para fora do jogo passa a ser convidado a apitar a partida em campo minado.
A história, caprichosa, desenha um roteiro em que o filho do Nordeste, acostumado a negociar entre patrões e peões, tenta agora negociar entre tanques e tendas de refugiados. O prestígio internacional de Lula não nasceu em gabinetes acarpetados: nasceu na fila do osso que virou fila do emprego, no barraco sem luz que virou casa de alvenaria, na panela vazia que foi substituída por feijão, arroz e um fiapo de dignidade.
É esse capital simbólico, acumulado na pele de um povo, que hoje rende convite para tratar de Gaza.
Quiseram destruí‑lo politicamente, mas descobriram que não se prende uma ideia que já aprendeu a andar nas pernas de milhões.
Se o Conselho da Paz quiser ser digno do nome, terá de ouvir o Lula que fala do Brasil e o Lula que fala pelo Sul do mundo.
Terá de admitir que paz não é cessar-fogo temporário, é projeto de sociedade: casa, escola, hospital, água limpa, voto livre, respeito a todas as vidas.
Sem isso, qualquer acordo será apenas um intervalo entre dois bombardeios, uma trégua decorativa para aliviar consciências pesadas. Que Trump chame Lula, que o Norte chame o Sul, que os donos do mundo chamem quem conhece o preço de cada quilo de feijão.
O convite, anunciado em manchetes e sussurrado em embaixadas, não é apenas um gesto diplomático: é a confissão de que os portadores oficiais da ordem perderam o manual da justiça.
E agora precisam do olhar cansado, mas teimoso, de um velho torneiro mecânico para tentar reencontrá‑lo entre os escombros de Gaza.
No fim, o verdadeiro Conselho da Paz talvez não esteja na sala climatizada onde líderes posam para fotos, mas na cozinha apertada de qualquer casa brasileira onde o povo acompanha tudo pela televisão.
Ali, entre o cheiro do café e o ruído da panela, o povo sabe distinguir prestígio de propaganda, estadista de oportunista, pão de promessa.
Se Lula sentar à mesa em nome da fome que já enfrentou por aqui e da guerra que quer ajudar a encerrar por lá, então, sim, o convite de Trump terá feito algum sentido.
Porque paz, no fundo, é isso: quando a criança de Gaza e a criança do Sertão podem brincar sob o mesmo céu, sem medo de sirenes e sem dor no estômago.
Enquanto esse dia não chega, o mundo segue olhando para esse Conselho, medindo cada gesto, pesando cada palavra.
E o Brasil, pela voz de Lula, volta a dizer ao planeta que dignidade não tem fronteira – e que é exatamente por isso que seus inimigos de ontem agora precisam do seu prestígio hoje.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.
















