Tudo começa com uma frase sussurrada na esquina: “Só ele pode nos salvar.” A crise aperta, o salário encolhe, a esperança desbota, e de repente alguém aparece com a voz firme, o gesto seguro e promessas que cabem em meia dúzia de slogans. Ninguém pergunta muito, porque o desespero não gosta de perguntas; prefere acreditar.
O líder, antes apenas mais um rosto na multidão, começa a crescer no imaginário coletivo. Já não é apenas fulano — é “o homem”, “a única saída”, “o escolhido”. As falhas viram mal-entendidos, as contradições ganham explicações criativas, e qualquer crítica passa a soar como blasfêmia contra a fé recém-nascida. Idolatria política dispensa altar: basta uma multidão cansada e um pouco de medo.
Nesse ponto, algo silencioso e perigoso acontece: o povo, que deveria vigiar, ajoelha. Em vez de cidadão, vira devoto. Em vez de cobrar, agradece. O líder percebe que pode tudo — e onde não há limite, nasce o abuso. A vontade pessoal se confunde com a vontade do povo, e qualquer discordância torna-se ameaça à “salvação” prometida. Salvadores adoram unanimidades; democracias, não.
O mais trágico é que o salvador não cai do céu: é moldado na fundição das carências, soldado com frustrações antigas e expectativas irreais. Quando a multidão decide transformar alguém em resposta definitiva, abdica do direito de errar junto e aprender junto. Prefere terceirizar o futuro para um só rosto. E nenhum rosto, por mais carismático que seja, suporta carregar sozinho a complexidade de um país sem se deformar.
E então percebemos que os “mitos” têm sotaques diferentes, mas a mesma ambição. Há o mito doméstico, que se alimenta da nostalgia do passado que nunca existiu; e há o mito de além-mar — como André Ventura — que idolatra o “Zé das Botas”, o fantasma autoritário de Salazar, e agora sonha com a faixa presidencial. Mudam os nomes, mudam as fardas, muda a bandeira ao vento — mas a tentação de ajoelhar continua sempre a mesma.
Porque, no fim, o problema nunca é o salvador.
O problema é a esperança preguiçosa que se ajoelha,
quando deveria levantar a cabeça.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.
















