O Tocantins vive, em 2025, um momento de forte destaque no comércio exterior brasileiro. Segundo dados da Plataforma ComexStat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços – MDIC (2026), o estado alcançou US$ 3,04 bilhões em exportações, o equivalente a cerca de R$ 16,4 bilhões[1], registrando um crescimento expressivo de 21,7% em relação a 2024. Com esse desempenho, o Tocantins consolidou-se como a terceira maior economia exportadora da Região Norte, atrás apenas do Pará e de Rondônia.
Esse avanço, contudo, está sustentado por uma pauta exportadora ainda pouco diversificada e fortemente concentrada em commodities. A soja permanece como o principal produto, respondendo por aproximadamente 51% do valor exportado, reflexo da força do agronegócio local e de sua inserção competitiva nos mercados internacionais. A carne bovina ocupa a segunda posição, impulsionada pelo aumento da produtividade e pela demanda externa. Já a mineração de ouro, com cerca de 6,5% do total exportado, surge como a terceira principal força da pauta exportadora tocantinense.
À primeira vista, a presença do ouro no comércio exterior pode ser interpretada como um sinal positivo de diversificação e de inserção em mercados de maior valor agregado. No entanto, uma análise mais cuidadosa revela que esse avanço levanta questionamentos importantes sobre a real capacidade dessa atividade de promover desenvolvimento econômico sustentável e socialmente justo no estado.
Dados recentes mostram que o Tocantins encaminhou para fora do país cerca de 1,9 tonelada de ouro em 2025, gerando uma receita aproximada de US$ 197,4 milhões (cerca de R$ 1,06 bilhão). Esse resultado dá continuidade a uma trajetória de crescimento acelerado. Em 2024, o estado já havia exportado 1.782 kg do metal, com receita superior a US$ 127,6 milhões, representando um salto de 54,7%. Com isso, o Tocantins passou a figurar entre os principais exportadores de ouro do Brasil, superando inclusive estados tradicionalmente associados à atividade mineral. O ouro produzido no Tocantins em 2025 foi integralmente destinado à exportação, sendo 68,2% enviado ao Canadá e os demais 31,8% à Suíça.
Apesar dos números impressionantes, é legítimo perguntar: quanto dessa riqueza permanece efetivamente no estado e se converte em melhorias concretas para a população local?
A mineração de ouro, especialmente quando vendido ao exterior em estado bruto ou semimanufaturado, tende a gerar baixo valor agregado internamente. Grande parte dos ganhos concentra-se nas grandes corporações mineradoras e nos mercados globais de commodities, enquanto as economias locais capturam apenas uma fração desse valor. Assim, o Tocantins perde a oportunidade de gerar cadeias produtivas locais mais complexas, com maior valor agregado, como refino, joalheria ou insumos industriais derivados.
Esse desequilíbrio torna-se ainda mais evidente ao se observar a arrecadação da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM). De acordo com dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), em 2025 o município de Almas, principal exportador de ouro do Tocantins, comercializou cerca de R$ 1 bilhão em ouro, mas recebeu apenas R$ 8,4 milhões em CFEM, o equivalente a aproximadamente 0,8% do valor exportado. Considerando que a alíquota da CFEM para o ouro é de 1,5% sobre a receita bruta, os recursos que retornam aos municípios e ao estado são modestos diante da magnitude da riqueza gerada. O que indica que o Tocantins tem recebido valores acanhados que, apesar de representar algum aporte aos cofres públicos, é bastante reduzido frente ao potencial no comércio internacional.
Essa discrepância acende um alerta importante. Com uma arrecadação limitada, torna-se difícil promover investimentos estruturais robustos em infraestrutura, educação, saúde ou mesmo na mitigação dos impactos socioambientais decorrentes da atividade mineral. Em muitos casos, os municípios mineradores enfrentam aumento da pressão sobre serviços públicos sem a contrapartida financeira necessária para atendê-la.
Além disso, não se pode ignorar o passivo ambiental associado à mineração de ouro. A atividade costuma provocar alterações significativas no uso do solo, degradação de ecossistemas e contaminação de corpos hídricos, sobretudo quando a fiscalização é insuficiente. Somam-se a isso impactos sociais relevantes, como conflitos fundiários, pressão sobre comunidades locais e desafios de ordenamento urbano em pequenos municípios que não acompanham, em infraestrutura e planejamento, o ritmo da expansão econômica do setor.
Diante desse cenário, o avanço do comércio internacional de ouro coloca o Tocantins em evidência, mas também impõe escolhas estratégicas. O desafio não está em negar a importância da mineração, mas em redefinir seu papel no projeto de desenvolvimento estadual. Para que o ouro se transforme, de fato, em uma alavanca de prosperidade sustentável, é fundamental ampliar o processamento local do minério, fortalecendo cadeias produtivas mais complexas e geradoras de emprego. Também é necessário revisar e aprimorar os mecanismos de arrecadação e redistribuição da CFEM, garantindo que uma parcela maior da riqueza gerada permaneça nos territórios afetados.
Por fim, torna-se imprescindível a adoção de políticas ambientais rigorosas, sustentadas por fiscalização efetiva, transparência e mecanismos reais de compensação às comunidades diretamente impactadas pela mineração. Sem esse compromisso, o crescimento das remessas externas de ouro corre o risco de aprofundar desigualdades, ampliar passivos ambientais e limitar os benefícios sociais da atividade mineral. Somente a partir de um conjunto articulado de medidas, que envolva maior agregação de valor ao minério, redistribuição mais justa das receitas e responsabilidade socioambiental, o Tocantins poderá impedir que o brilho do ouro oculte armadilhas econômicas e sociais. Assim, o protagonismo do estado nas exportações minerais poderá ser convertido em um projeto de desenvolvimento econômico duradouro, inclusivo e verdadeiramente sustentável.
FRANCISCO VIANA CRUZ
É doutor em Economia e Professor do IFTO
E-mail: vianacruz@ifto.edu.br
[1] Na cotação do dia 15/01/2025
















