O carnaval não é apenas festa; é memória, é política, é espelho da sociedade. Desde a Antiguidade, os gregos e depois os romanos celebravam a fertilidade e a colheita, e nessas celebrações, por entre máscaras e exageros, a hierarquia era temporariamente suspensa.
O carnaval era a “válvula de escape” da vida cotidiana, onde todos podiam ser iguais, e o profano, aquele que se situava fora do templo, ganhava sentido social e libertador. Era uma festa que permitia viver o efêmero da liberdade, ainda que apenas por alguns dias.
Com o advento do Cristianismo, o profano passou a carregar um sentido oposto ao sagrado, mas não se tornou maldição. O carnaval medieval coexistia com o calendário da Igreja, lembrando que o corpo, o desejo e a carne têm seu lugar. A festa da carne, a festa do mundo, não rebelava-se contra Deus; rebelava-se contra a rotina, contra as normas rígidas, contra a desigualdade que o cotidiano insistia em perpetuar. Sempre foi, portanto, mais do que celebração: foi crítica, reflexão e até resistência.
Hoje, na Marquês de Sapucaí, o carnaval se transforma em espetáculo. Mas, é um espetáculo que não se limita ao brilho ou à dança; ele interroga, provoca, desafia. A avenida torna-se um palco democrático, onde cores, sons e imagens dialogam com a realidade brasileira: racismo, desigualdade, violência, cultura negra e memória histórica.
Cada escola é uma voz coletiva, cada alegoria uma frase, cada samba-enredo um manifesto. O carnaval moderno é, antes de tudo, arte política, um grito poético que rompe hierarquias, que questiona privilégios, que convida a refletir sobre a sociedade que nos cerca.
O ódio ao carnaval não é ao confete, à fantasia ou à bateria; é ódio à democracia que ele celebra, à igualdade que ele propõe. Ele quebra estruturas, suspende lugares, inverte papéis. E talvez por isso incomode: a liberdade que surge na avenida incomoda aqueles que insistem em manter hierarquias e exclusão.
Na Sapucaí, a memória se encontra com o presente. Homenagens a Mestres, cantores, escritores e líderes populares, de Mestre Ciça a Lula, lembram que o carnaval é testemunha da história e cartografia da cultura. Mas, mais do que isso, é espelho: revela a sociedade que somos e a que poderíamos ser. É festa e crítica, cores e reflexão, celebração e política. É poesia que dança, que “quebra as armadilhas do mundo”. É aventura espiritual, porque se distancia do habitual.
O carnaval continua sendo profano e sagrado ao mesmo tempo. Ele é liberdade suspensa no tempo, crítica embalada em ritmo, máscaras, fantasias, cores, confetes, memória, consciência histórica, reescrita do passado, reconstrução. É arte que provoca, arte que questiona, arte que transforma. E, acima de tudo, é o grito coletivo de uma sociedade que se recusa a esquecer que a igualdade é, sempre, possível, mesmo que apenas por alguns dias.
JAIRO BARBOSA MOREIRA
É doutor em Educação (UFG), professor de Filosofia/IFTO e sacerdote da Diocese de Cristalândia-TO.
















