Em um contexto de envelhecimento populacional acelerado e crescentes demandas por serviços de saúde integral no Norte e Centro-Oeste do Brasil, a Universidade de Gurupi (UnirG) emerge como um polo estratégico para o fortalecimento da formação profissional na área da saúde. Dados do Censo Demográfico de 2022 revelam que Gurupi, no Tocantins, abriga uma população de aproximadamente 15 mil famílias afetadas por neurodivergências e deficiências psicomotoras, com uma carência estimada de 37 profissionais qualificados em Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional. Essa lacuna não é isolada: reflete uma realidade nacional onde 60% da população regional carece de atendimento especializado, conforme relatórios do Sistema Único de Saúde (SUS). Diante disso, a implantação de cursos temporários – como graduações de curta duração em Fonoaudiologia, Terapia Ocupacional e Gerontologia – surge não apenas como uma resposta imediata, mas como uma medida viável e transformadora para atender demandas regionais em saúde, educação e qualidade de vida, ao mesmo tempo em que impulsiona o desenvolvimento econômico local.
Os fundamentos para essa proposta encontram respaldo em estudos recentes que analisam as necessidades locais e o potencial formador da UnirG. Um artigo publicado nos Anais da Revista Seven (2025), intitulado “Proposta de implantação dos cursos de Graduação em Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional na Universidade de Gurupi (UnirG): Uma resposta às demandas reprimidas e ao desenvolvimento regional”, demonstra com clareza a urgência e a factibilidade desses cursos. Baseado em dados qualitativos e quantitativos do Censo 2022 e de informativos regionais, o estudo estima uma demanda reprimida por 3.200 indivíduos com neurodivergências e deficiências psicomotoras em Gurupi até 2025, com apenas 20 fonoaudiólogos e 18 terapeutas ocupacionais atuantes. A pesquisa projeta que a formação de 400 profissionais em oito anos (2028-2035) poderia reduzir em 60% os custos com deslocamentos para tratamento em outros estados, liberando recursos do SUS para investimentos locais. Financeiramente, o investimento inicial para infraestrutura e equipamentos é estimado em R$ 4,12 milhões, com potencial de repasse anual de R$ 2,4 milhões via Fundo Nacional de Saúde (FNS), considerando parcerias com o Centro de Reabilitação Especializado Monsenhor Geraldo Torres (CER), inaugurado em junho de 2025.
Essa análise não se limita a números: ela destaca o impacto social e econômico. A UnirG, como instituição pública municipal, pode atuar como indutora de desenvolvimento ao formar profissionais que atendam não só Gurupi, mas municípios consorciados, como Alvorada, Formoso do Araguaia, Palmeirópolis e Dianópolis, alcançando uma população de 250 mil habitantes. O estudo calcula um retorno estimado de R$ 287 milhões em economia municipal via redução de deslocamentos e geração de empregos – cerca de 800 vagas diretas em saúde coletiva com projeções até 2030. Ademais, a integração da IES com o SUS promove uma transferência de recursos federais de R$ 6 milhões anuais, fortalecendo a rede de atendimento e reduzindo a dependência de profissionais externos, que representam 10% dos cursos de saúde no Tocantins, conforme o Censo da Educação Superior de 2022.
Complementando essa visão, um segundo estudo, publicado na Revista Kairós-Gerontologia (2023, Vol. 26, n. 3), intitulado “A atuação do profissional bacharel em Gerontologia na área da pesquisa e na docência universitária”, amplia o escopo para o envelhecimento populacional, um desafio crescente na região. O artigo discute como o bacharelado em Gerontologia, uma formação interdisciplinar que integra ciências biológicas, sociais e políticas, é essencial para o cuidado integral ao idoso.
No Brasil, onde a expectativa de vida ultrapassa 76 anos, profissionais gerontólogos atuam em pesquisas sobre fragilidade, políticas públicas e docência, preenchendo lacunas em universidades como a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e a EACH-USP. O texto enfatiza que, sem formação local, há uma dependência de experts externos, o que compromete a autonomia regional. Em Gurupi, onde mais de 10% da população é idosa (projeção IBGE 2025), a inclusão de um curso temporário em Gerontologia poderia capacitar 200 docentes e pesquisadores em cinco anos, fomentando parcerias com o CER, Universidade da Maturidade(UMA) e o SUS para estudos sobre qualidade de vida e envelhecimento ativo.
A implantação de cursos temporários – com duração de 6 a 8 semestres, focados em competências práticas e alinhados às Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) – representa uma estratégia de baixo risco e alto impacto para a UnirG. Diferente de graduações plenas, esses programas piloto demandam investimentos iniciais moderados (R$ 1,07 milhão para laboratórios e R$ 250 mil em CAPEX, conforme estimativas do primeiro artigo), financiáveis por emendas parlamentares e o Fundo de Financiamento Estudantil (FIES). Eles fortalecem os cursos existentes de saúde na instituição, como Enfermagem, Fisioterapia, Odontologia, Educação Física, Psicologia e em especial a Medicina que já demonstra uma diminuição nos inscritos do vestibular 2025, ao criar redes interdisciplinares e centros de extensão comunitária com aproveitamento desses profissionais externos e futuros egressos da própria IES.
No âmbito educacional, atendem à demanda por inclusão social, formando profissionais sensíveis às realidades neurodivergentes e idosas, e elevam a qualidade de vida regional ao reduzir em 50% o tempo de espera por reabilitação, conforme projeções do SUS. Com essa implantação em caráter de cursos programados por até 6 ou 8 anos de existência, otimizará também a participação dos profissionais externos a novas possibilidades e ampla gama de cursos da área da saúde instalado na mesma cidade, criando assim um viés econômico e vocacional voltado a saúde coletiva em nossa região.
Economicamente, a viabilidade é inegável. Gurupi, como hub do sul e sudeste tocantinense, veria um ciclo virtuoso: formação de mão de obra qualificada gera 1.200 empregos indiretos em saúde e pesquisa até 2030, estimulando o comércio local e atraindo investimentos federais. O segundo artigo reforça isso ao destacar que gerontólogos formados atuam em políticas de longevidade, impulsionando setores como turismo sênior e serviços domiciliares, com potencial de R$ 135 milhões em economia local (dados SESAU-TO, 2025). Essa integração universidade-SUS-região não só mitiga desigualdades, mas posiciona a UnirG como referência no Norte, alinhada à Agenda 2030 da ONU para desenvolvimento sustentável
Em síntese, a implantação desses três cursos temporários na UnirG não é mero paliativo, mas uma alavanca estratégica para o futuro. Baseados em evidências robustas dos estudos citados, eles respondem a demandas reprimidas, fortalecem a instituição e catalisam o crescimento econômico. É hora de ação: autoridades educacionais, parlamentares e gestores do SUS devem priorizar essa iniciativa, garantindo que Gurupi – e o Tocantins – colham os frutos de uma saúde inclusiva e próspera. O potencial está à vista; cabe à sociedade regional transformá-lo em realidade.
JENILSON DE CIRQUEIRA
É professor, mestre e doutorando e Pesquisador em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7426826232103226
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