Aos 15 anos, não sabemos, mas começamos a nos construir. Somos argila fresca, inquieta, tocada por mãos invisíveis: a curiosidade, o espanto, o susto do primeiro e da aventura. Tudo nos perpassa – a alegria, o medo, a pressa – e cada sensação revela um mundo. É o início da consciência, essa lâmina afiada que nos ensina a diferença entre ver e compreender. A juventude acredita que viver é avançar, mas, no fundo, é abrir os olhos pela primeira vez.
Aos 30, percebemos que o tempo não é um relógio – é uma escolha. O que aprendemos precisa ser testado cotidiano; decisões que nos moldam, perdas que nos talham, responsabilidades que nos revelam. A maturidade inicial é uma espécie de batalha silenciosa entre aquilo que desejamos ser e aquilo que o mundo tenta nos transformar. Nessa década, enfim, descobrimos que agir também é pensar com o corpo.
Aos 40, a alma começa a desfazer as amarras antigas. É uma idade frontal: olhamos para nós mesmos sem a maquiagem das ilusões, sem as amarras que herdamos sem perceber. É quando percebemos que preconceito – qualquer um – é apenas medo petrificado. E, então, soltamos, abrimos espaço, acolhemos o novo. É o início da lucidez profunda, aquela que nos torna inteiros pela primeira vez.
Aos 50, a vida, enfim, se revela em sua essência: não é uma corrida, nem um palco, nem um lugar de disputas. E nós caminhamos por ela em busca de significados. A sensibilidade se afina, o olhar se torna microscópico e telescópico ao mesmo tempo. Descobrimos que a plenitude nunca gritou – sempre murmurou por trás do ruído dos dias. É a idade que entendemos que existir é, sobretudo, sentir.
Aos 60, o coração se torna filósofo. Suas razões não seguem lógica alguma, mas carregam a verdade mais exata que existe. Não é a coragem que nos guia, é o entendimento. Nos mostra que a vida não precisa ser conquistada: precisa ser bem vivida. É tempo da autenticidade, da liberdade sem bandeira, de estar consigo mesmo sem pedir permissão ao mundo.
Dos 70 em diante, a vida ganha outra densidade: torna-se sagrada. Cada gesto é um pacto com o fim da missão que assumimos. Cada vontade é uma chama que precisa ser preservada, não pelo excesso, mas pelo cuidado. Os exageros cedem lugar ao essencial, porque a alma já sabe que tudo é profundo e existe no silêncio – e no silêncio tudo se revela. No fim, o tempo não passa por nós. Nós é que passamos por ele como viajantes que atravessam salas de luz e sombra, recolhendo fragmentos de sabedoria, até perceber que viver é, desde o início, um processo de despertar. E cada idade é uma porta e todas abrem para dentro.
Quem tem ouvidos que ouça; quem tem olhos que veja!
(Dedico aos(as) amigos(as) de todas as idades e em especial ao Dr. Guilherme Magaldi, representante dos setentões).
JOSÉ CÂNDIDO PÓVOA
É poeta, escritor e advogado; membro-fundador da Academia de Letras de Dianópolis.
candido.povoa23@gmail.com















