Sempre achei que a amizade é o amor quando ele aprende a ficar.
Não tem o fogo da paixão nem a solenidade dos grandes juramentos. Ela chega de mansinho, senta ao nosso lado e permanece. É o sentimento mais nobre que nasce do amor porque já não exige, apenas oferece.
O amigo é aquele que conhece nossas falhas e não se assusta. O verdadeiro amigo não julga e não é julgado pelo amigo. O amigo não age de má fé e não vê maldade no amigo. Vê nossos silêncios e os respeita. Não precisa de explicações longas nem de presenças diárias. Às vezes, passa anos sem aparecer, mas quando retorna, tudo está no mesmo lugar: a conversa interrompida, acima de tudo a confiança intacta e o afeto amadurecido.
A amizade é feita de pequenas coisas: um café compartilhado, uma risada fora de hora, uma palavra dita no momento certo ou o silêncio quando nenhuma palavra resolve, a intuição da ajuda mesmo sem ser cobrada. Não cobra performance, não pede máscaras. Permite que sejamos quem somos, com nossas imperfeições e cansaços.
Talvez por isso seja tão rara e tão preciosa. Enquanto outros amores pedem provas, a amizade se prova no tempo. Ela atravessa mudanças, perdas, distâncias. Envelhece conosco, aprende sobre nossas virtudes, aceita nossos limites.
No fim das contas, quando o barulho do mundo diminui e os interesses de terceiros por nós ou nossa capacidade de ajuda se esvai, a vida se revela como ela é e só os autênticos e verdadeiros amigos que ficam. Como uma extensão da família que escolhemos. Como um abrigo simples, mas seguro.
A amizade é o amor que venceu o egoísmo. É quando o coração aprende que amar também é permanecer sem posse, sem pressa, sem medo.
Aprendi cedo, embora tenha demorado a entender, que amor e amizade não são ruas de mão única. Não adianta seguir oferecendo afeto como quem joga cartas ao vento, esperando que alguma volte por acaso. Esses sentimentos só fazem sentido quando vão… e voltam.
Amar é estender a mão e sentir que alguém a segura do outro lado. Amizade é abrir a porta e perceber que não entramos sozinhos. Quando só um lado caminha, cansa. Quando só um fala, o silêncio pesa. Quando só um cuida, o coração aprende a se proteger.
Não se trata de cobrança, mas de reciprocidade. Porque o amor que não retorna vira saudade antecipada. E a amizade que não responde vira lembrança triste do que poderia ter sido.
Os melhores vínculos são como estradas bem cuidadas: têm ida e volta, conversa nos dois sentidos, cuidado compartilhado. Um liga, o outro retorna. Um cai, o outro levanta. Um se cala, o outro percebe.
No fim das contas, amor e amizade são acordos silenciosos: eu vou até você, mas você vem até a mim. Porque sentimento bom não é o que só se oferece, é o que circula.
“Quem tem ouvidos que ouça, quem tem olhos que veja!”
JOSÉ CÂNDIDO PÓVOA
É poeta, escritor e advogado; membro-fundador da Academia de Letras de Dianópolis.
candido.povoa23@gmail.com















