Pode parecer exagero comparar o Lago de Tiberíades, na Galileia, ao Lago que margeia a cidade de Palmas, Capital do Estado do Tocantins e talvez seja, aos olhos de quem mede o mundo apenas com mapas e datas.
Mas há exageros que a poesia permite, sobretudo quando a comparação nasce do silêncio e da contemplação. Assim, sem constrangimento, ouso aproximar o Lago de Tiberíades do Lago que compõe a bela paisagem de Palmas: dois mares de água doce, separados pela história, mas tocados pela mesma vocação de acolher o ser humano.
O Lago de Tiberíades, no coração da Galileia, não é apenas um corpo d’água: é cenário de presença. Ali, Jesus caminhou pelas margens, chamou pescadores pelo nome e fez da rotina simples um lugar de revelações. Foi naquele espelho sereno que redes vazias se encheram, que o medo dos ventos foi acalmado por uma voz mansa e que a água, obediente, sustentou passos impossíveis aos olhos da razão. Cada ondulação parece ainda guardar o eco dessas passagens, como se o lago tivesse aprendido a reconhecer e guardar o sagrado.
Chamam-no de mar porque ele comporta mistério. Não pela força das ondas, mas pela profundidade simbólica. Suas águas doces viram o Divino sentar-se num barco emprestado para ensinar, multiplicar confiança e transformar homens comuns em discípulos. Às suas margens, Jesus não apenas passou: permaneceu. E essa permanência marcou o lago para sempre.
Palmas, por sua vez, não traz o peso milenar da fé narrada nas Escrituras. É cidade jovem, de traços largos e horizontes abertos. O lago que a margeia não testemunhou milagres narrados em evangelhos, mas recebe diariamente gestos simples que também falam de transcendência: famílias reunidas, olhares perdidos no pôr do sol, silêncios que confortam mais do que discursos.
Ali, a presença não se impõe; ela se insinua.
Enquanto o lago de Tiberíades guarda a memória de Jesus que ensinou, curou e acalmou tempestades, o lago de Palmas parece convidar à escuta interior. Um lembra que Deus caminhou entre os homens; o outro sugere que ainda caminha, discretamente, nos instantes de paz que oferecemos a nós mesmos.
Ambos são mares por licença poética. Um santificado pela passagem explícita do Cristo; o outro aberto à fé cotidiana, que se manifesta sem espetáculo. Em comum, a água doce, símbolo de vida que não agride, de grandeza que acolhe. E talvez seja por isso que, diante deles, o coração reconheça algo familiar.
Se isso for exagero, que seja. Porque há comparações que não buscam equivalência, mas sentido. E nesses dois mares de água doce, um consagrado pela presença de Jesus, outro pela serenidade que inspira, aprendemos que o sagrado também se reflete na superfície tranquila das águas.
Talvez seja isso que esses dois mares ensinam, cada um a seu modo: que Deus não precisa de oceanos para ser imenso, nem de sal para deixar marcas profundas.
“Quem tem ouvidos que ouça, quem tem olhos que veja!”
JOSÉ CÂNDIDO PÓVOA
É poeta, escritor e advogado; membro-fundador da Academia de Letras de Dianópolis.
candido.povoa23@gmail.com
















