Os finais de ano em Dianópolis, minha cidade natal, no Tocantins, emoldurada pela bela Serra Geral, tinha o perfume do tempo parado. A cidade parecia respirar diferente, como se até o córrego Getúlio, já cansado de tanto irrigar vidas, diminuísse o seu compasso de embalar águas para ouvir o ano se despedir. Eu menino sentia isso sem saber explicar. Apenas sentia.
A minha infância morava nas ruas descalças de terra quente, nos banhos improvisados, na água fria caindo paciente da biquinha, vinda de um lugar que a gente nunca soube, mas confiava.
Dezembro chegava trazendo chuvas curtas, risos soltos e a expectativa do Natal simples, vivido mais no coração do que na mesa. A fé era assim: aprendida olhando, não perguntando. Um sinal da cruz antes de dormir, um “Deus te acompanhe” dito na porta, bastava.
Na adolescência, o fim do ano já pesava diferente. O mesmo céu aberto agora parecia enorme para os sonhos que queriam ir embora. As noites pediam conversa comprida, silêncio profundo e uma coragem que ainda não sabíamos nomear.
A igrejinha de São José continuava ali, firme, oferecendo o mesmo sino e a mesma fé, o serviço de alto-falante da praça com suas músicas clássicas vislumbrava um mundo de sonhos, enquanto a gente aprendia que crescer também é sentir saudade antes da partida.
Hoje, quando dezembro retorna, ele não vem vazio. Traz o menino de pés descalços, o rapaz inquieto e o homem que aprendeu a carregar tudo isso dentro de si. Minha terra natal mudou, o córrego praticamente não existe, mas o interior da memória permanece intacto. E toda virada de ano, ainda agradeço em silêncio, como aprendi, por ter vindo de um lugar onde o tempo ensinava devagar e a fé nunca precisou de explicação.
Feliz Ano Novo aos que tiverem oportunidade de ler esta pequena crônica.
Quem tem ouvidos que ouça, quem tem olhos que veja!
JOSÉ CÂNDIDO PÓVOA
É poeta, escritor e advogado; membro-fundador da Academia de Letras de Dianópolis.
candido.povoa23@gmail.com















