Em um país de dimensões continentais, onde a música sempre funcionou como espelho das transformações sociais, poucas duplas alcançaram papel tão decisivo quanto Léo Canhoto & Robertinho. Surgidos no final da década de 1960, quando o Brasil vivia efervescência cultural, urbanização acelerada e o choque entre tradição e modernidade, os dois artistas inscreveram seus nomes na história ao promover uma verdadeira inflexão estética no gênero sertanejo. Seu mérito não se limita a sucessos fonográficos: eles foram agentes de ruptura, protagonistas de um processo de eletrificação que alterou para sempre a paisagem musical brasileira.
Raízes e formação de uma dupla que ousou romper paradigmas
Leonildo Sachi, o Léo Canhoto, natural de Anhumas (SP), e José Simão Alves, o Robertinho, nascido em Água Limpa (GO), carregavam em suas biografias os elementos essenciais do universo sertanejo: a vivência interiorana, o apego às narrativas rurais e uma profunda familiaridade com a viola, a moda e a dicção caipira tradicional. Contudo, em meio a um cenário musical que começava a se urbanizar, ambos perceberam que o gênero precisava respirar novos ares.
A junção dos dois, em 1969, não foi mero encontro de vozes harmoniosas; foi o início de uma proposta estética que desafiaria o conservadorismo musical da época. Goiânia então um eixo emergente de produção cultural serviu de incubadora para a dupla que viria a “eletrificar” o sertanejo.
A estética da ruptura: quando a guitarra invade a roça
Até a chegada de Léo Canhoto & Robertinho, a música sertaneja permanecia fortemente enraizada na tradição acústica: viola, sanfona, violão de aço e percussões discretas. A aparição da guitarra elétrica, do contrabaixo elétrico e da bateria no gênero era considerada, para muitos, quase uma heresia.
A dupla desafiou essa lógica. De maneira deliberada, passaram a adotar arranjos densos, marcados pela pulsação do baixo, pela dramaticidade da bateria e pelos solos incisivos de guitarra recursos até então mais associados ao rock, à Jovem Guarda e às linguagens pop que dominavam a juventude urbana.
Essa fusão não apagava a essência caipira; ao contrário, acendia um novo farol sobre ela. O universo rural, seus dramas e afetos, continuava presente nas letras e melodias mas agora guiado por um arcabouço instrumental que ampliava a expressividade da narrativa.
Entre aplausos e resistência: a polêmica que precede toda revolução
A ousadia, como sempre ocorre em movimentos artísticos que rompem com estruturas consolidadas, não passou incólume. Setores tradicionalistas acusavam a dupla de “urbanizar demais” um gênero que, para muitos, deveria permanecer preso ao rancho, ao mato e à viola. A crítica carregava, por vezes, um tom de desconfiança cultural: seria legítimo misturar o universo rural com o aparato eletrificado das cidades?
O público, entretanto, respondeu de maneira surpreendente: jovens, rádios e programas de televisão rapidamente aderiram ao novo som. A estética visual da dupla, roupas marcantes, postura de palco moderna, gestualidade inspirada em artistas internacionais também seduziu espectadores e consolidou a identidade inovadora de ambos.
Produção musical e construção de um catálogo emblemático
Ao longo das décadas de 1970 e 1980, Léo Canhoto & Robertinho lançaram discos que hoje figuram como documentos históricos da evolução do sertanejo. Seu repertório oscilava com maestria entre a tradição e a modernidade: modas de viola conviviam com arranjos orquestrados, guitarras dialogavam com sanfonas, melodias melancólicas ganhavam dramatização inédita através da bateria e do baixo elétrico.
Álbuns e coletâneas difundidos nas plataformas digitais contemporâneas como grandes sucessos preservam essa dualidade que, para muitos, é o maior legado da dupla: mostrar que a música sertaneja pode dialogar com o mundo sem perder a alma.
A dupla como marco histórico: o surgimento da “segunda onda” do sertanejo
Musicólogos e críticos culturais frequentemente dividem a trajetória do sertanejo em fases. A chamada “primeira onda” corresponde ao caipira clássico; a “segunda onda”, iniciada em grande parte com o trabalho de Léo Canhoto & Robertinho, inaugura o sertanejo moderno urbano, amplificado, dialogando com outros gêneros e construído sobre bases musicais mais diversas.
Essa fase abriria caminho, anos depois, para o sertanejo romântico, o sertanejo pop, e, mais adiante, para o sertanejo universitário todos marcados pela presença indispensável da guitarra, do baixo e da bateria. Aquilo que um dia foi ousadia passou a ser regra, provando que a dupla não apenas inovou, mas reconfigurou todo o ecossistema musical sertanejo.
Legado, reconhecimento tardio e permanência histórica
Com o falecimento de Léo Canhoto em 2020, diversos obituários ressaltaram sua função pioneira: um artista que enxergou a necessidade de atualização estética antes que o mercado percebesse essa urgência. Sua parceria com Robertinho deixou marcas profundas na formação sonora de gerações inteiras.
Hoje, quando um show sertanejo utiliza uma banda completa, com bateria pulsante, contrabaixo elétrico, riffs de guitarra e arranjos modernos, há um traço invisível que remete ao gesto inaugural daquela dupla que, na década de 1970, decidiu que o sertanejo poderia e deveria dialogar com as linguagens contemporâneas.
A ousadia que fez história
Léo Canhoto & Robertinho não foram apenas intérpretes de um gênero: foram tradutores de um tempo, mediadores entre passado e futuro. A coragem de eletrificar o sertanejo, num momento em que essa decisão representava risco, crítica e incerteza, os colocou entre as figuras mais relevantes da história da música popular brasileira.
A dupla provou que tradição não é sinônimo de imobilidade; é matéria viva, capaz de se reinventar sem abandonar suas raízes. E, por isso, merecem ser lembrados como os arquitetos da modernização sonora que transformou o sertanejo em potência nacional e abriu portas para tudo o que veio depois.
RAFAEL DIAS
É acadêmico do Curso de Psicologia, Advogado, Radialista, Cantor, Compositor, Musicista, Integrante da dupla sertaneja Rafael Dias & Paulinho, ex-integrante do famoso Trio Os Canarinhos do Brasil, criador e ex-maestro da 1º Orquestra Sanfônica do Tocantins “Orquestra Amor Perfeito”, esteve Secretário do Procon Municipal de Palmas em meados de 2023/2024.
@rafaeldiassp
rafaeldiasdesousapereira@gmail.com
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