Há acontecimentos que rasgam a superfície tranquila de uma cidade como uma fissura irreparável. A morte de Dhemis, segurança que estava apenas cumprindo seu trabalho no shopping de Palmas, não é um episódio isolado. É um espelho brutal, incômodo e necessário. Um lembrete de que a sociedade que estamos formando há décadas está produzindo adultos que não entendem a relação mais básica da vida: toda causa tem consequência.
No caso que chocou Palmas, muita gente se pergunta “como alguém chega a esse ponto?”. Mas a pergunta essencial é outra: como estamos educando para que alguém chegue a esse ponto?
Porque ninguém nasce desse jeito.
Antes de ser adulto, cada um desses personagens da tragédia já foi criança. Criança que talvez nunca ouviu “não”. Que não foi chamada de volta. Que cresceu sem limite, sem frustração, sem hierarquia, sem referência. Criança que, em algum momento, foi poupada de todas as pequenas consequências da vida — e por isso, hoje, não suporta as grandes.
Vivemos uma era esquisita:
pais que confundem amor com blindagem,
escolas proibidas de corrigir,
autoridade tratada como opressão,
e frustração rotulada como violência emocional.
Criamos uma geração que aprendeu que basta sentir para justificar qualquer ação. Gente que acha que vontade é argumento e que emoção é salvo-conduto. Sem consequência, não existe causa. Sem causa, não existe responsabilidade.
Mas a realidade não é terapeuta.
A realidade não negocia.
A realidade cobra.
E quando cobra, é sempre na porta de alguém inocente — dessa vez, foi a porta de Dhemis.
A geração blindada das consequências
Quer o ponto nevrálgico?
Criamos uma geração que acha que tudo é reversível, tudo é perdoável, tudo é justificável, tudo pode ser “resolvido depois”. Só que o mundo adulto não funciona assim.
Toda causa tem consequência.
Mas ensinamos uma geração inteira a viver como se não tivesse.
E então acontece o inevitável:
Quando a consequência finalmente aparece, ela chega sem pedir licença.
Chega com gravidade.
Chega cobrando tudo que foi evitado por anos.
E aí vem o choque:
quando a consequência é real, não há pai, mãe, desculpa, discurso ou justificativa que impeça a cobrança.
Três dias depois: o silêncio que revela tudo
Três dias após o caso, o autor do disparo permaneceu escondido.
E isso simboliza algo maior do que a fuga em si: simboliza a falência da bolha emocional onde muitos crescem.
O “menino corajoso” desapareceu.
O “valentão” sumiu.
A arrogância virou medo.
E aqui está a síntese que ninguém quer encarar:
O menino mimado que nunca encarou consequência agora se encolhe diante da primeira realidade que não pode manipular.
Na primeira crise verdadeira, a máscara cai.
A pseudo-coragem evaporou.
E pela primeira vez, nem mesmo os pais — que talvez tenham passado a vida protegendo, justificando e blindando — conseguem salvá-lo.
Essa é a tragédia invisível por trás da tragédia real:
sem consequência, não há caráter; sem caráter, não há limite; sem limite, não há convivência.
E quando a consequência finalmente bate à porta, ela vem sem anestesia.
A dor que fica
Enquanto isso, a família de Dhemis tenta reorganizar o mundo depois de perdê-lo de forma absurda e injusta.
E nós, como sociedade, seguimos insistindo em discutir somente os efeitos — nunca as causas.
Falamos de segurança, policiamento, shopping, normas…
mas evitamos discutir o que realmente alimenta tragédias como essa:
- educação permissiva;
- ausência de autoridade real;
- famílias que terceirizam tudo;
- adultos que nunca foram contrariados;
- jovens incapazes de lidar com a própria frustração.
Não adianta tratar a folha se a raiz está podre.
Ou encaramos o problema, ou a consequência volta
A pergunta que sobra é simples, dura e inevitável:
Quantos “meninos mimados” vamos continuar fabricando até admitir que limite não é opressão — é proteção?
A tragédia de Palmas tem muitas camadas, mas a principal é esta:
A consequência sempre chega.
A diferença é quando e sobre quem ela recai.
Desta vez, caiu sobre um inocente.
E enquanto continuarmos educando para o desejo e não para a responsabilidade,
enquanto tratarmos disciplina como inimiga e frustração como trauma,
enquanto formarmos adultos que nunca ouviram “não”,
viveremos num país onde a consequência bate à porta de uns
porque a causa foi ignorada por outros.
Dhemis merecia estar vivo.
E a sociedade precisa ter coragem de dizer isso em voz alta.
VIRGÍLIO MEIRELLES
É professor universitário, advogado e psicanalista clínico.
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