A análise recente da BlackRock – a maior gestora de ativos do planeta, administrando um patrimônio superior a dez trilhões de dólares – revela mais do que uma leitura financeira: ela traduz uma mudança de paradigma. Ao afirmar que não há uma bolha de inteligência artificial e que o mercado segue ancorado em lucros reais, a instituição reforça a consolidação de um novo eixo de poder econômico, assentado sobre tecnologia, dados e algoritmos. Os juros norte-americanos recuam em ritmo contido, o dólar oscila, mas a essência do capitalismo contemporâneo desloca-se – de ativos tangíveis para fluxos intangíveis, de petróleo para processamento, de indústria para inteligência. O risco, hoje, é sistêmico: não apenas financeiro, mas ético e ambiental.
Essa transição tecnológica, frequentemente analisada a partir de Nova York ou Londres, encontra eco nos territórios brasileiros. No Tocantins, por exemplo, onde a relação entre desenvolvimento e natureza se revela em cada hectare irrigado, a inteligência artificial já começa a ser incorporada como ferramenta de governança pública. Sistemas de monitoramento de outorgas, plataformas de dados ambientais e redes de sensoriamento remoto não são apenas instrumentos de gestão – são expressões de uma nova racionalidade ecológica. Essa convergência entre inovação e sustentabilidade, que tenho defendido em minhas pesquisas sobre desenvolvimento regional e justiça ambiental, evidencia que a tecnologia só é emancipadora quando serve à coletividade. Caso contrário, transforma-se em uma sofisticada forma de concentração de poder.
O alerta da BlackRock torna-se ainda mais contundente nesta semana, em meio à realização da COP30 em Belém do Pará. Nunca a distância entre o discurso financeiro e a realidade climática foi tão gritante. Enquanto investidores celebram lucros em setores impulsionados pela IA, o Brasil testemunha a devastação de Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná – uma pequena cidade praticamente varrida do mapa por um tufão. Esse evento extremo, inédito em magnitude e destruição, escancara a nova geografia do colapso: o risco climático deixou de ser uma tese refutada pelos negacionistas e passou a ser um fato vivido, com rostos, nomes e perdas reais. Quando uma comunidade inteira é desfeita em horas, produto interno bruto, o câmbio e a taxa de juros tornam-se métricas quase irrelevantes.
A COP30 ocorre, portanto, sob um paradoxo histórico. O Brasil é simultaneamente vitrine e laboratório: dono da maior floresta tropical do mundo, do maior reservatório de água doce e de uma das mais complexas agendas fundiárias e ambientais do planeta. O desafio agora é provar que é possível articular justiça social, economia verde e segurança jurídica – sem ceder ao greenwashing que transforma compromissos em slogans. Tenho insistido que o desenvolvimento sustentável não é uma cláusula de estilo, mas uma cláusula pétrea do futuro democrático. Ele exige políticas públicas que integrem ciência, governança e participação social; exige também coragem institucional para enfrentar as contradições entre o agronegócio de exportação e a conservação de biomas.
No fundo, a mensagem é clara e desconfortável: a inteligência artificial não é uma bolha, mas um espelho. Ela reflete as estruturas de poder que a criam e as desigualdades que perpetua. O mesmo algoritmo que otimiza carteiras de investimento pode ser usado para prever crises hídricas, prevenir desmatamentos ou mapear vulnerabilidades sociais – depende apenas da direção ética que lhe damos. Entre Wall Street, Pequim e o Matopiba, a mais nova fronteira agrícola brasileira, a humanidade se vê diante de uma encruzilhada: ou transforma inovação em sabedoria e lucro em equidade, ou seguirá produzindo tecnologia de ponta para administrar o colapso que ela mesma gerou. A inteligência já está posta; falta-nos agora a consciência.
WELLINGTON MAGALHÃES
É juiz de direito do Tribunal de Justiça do Estado do Tocantins (TJTO). Segundo Diretor Adjunto da Escola Superior da Magistratura do Tocantins (ESMAT). Coordenador do Centro Judiciário de Solução de Conflitos Ambientais e Fundiários (CEJUSCAF). Coautor do Programa Permanente de Inclusão Sociopolítica dos Povos Indígenas do Tocantins (TRE-TO) e do Projeto Gestão de Alto Nível dos Recursos Hídricos da Bacia do Rio Formoso (IAC/UFT). Mestre em Direito Constitucional pela Universidade de Coimbra, Portugal (FDUC) e Direitos Humanos pela Universidade Federal do Tocantins, Brasil (UFT). Doutor em Desenvolvimento Regional, Políticas Públicas e Efetividade da Prestação Jurisdicional, também pela Universidade Federal do Tocantins (UFT). Pós-Doutor em Poder Judiciário, Inteligência Artificial e Ações Ambientais. Formador credenciado pela Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados (ENFAM). Coordenador de cursos jurídicos e conferencista sobre temas afetos aos direitos humanos, meio ambiente, povos indígenas e efetividade da prestação jurisdicional.
















