CLEBER TOLEDO
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TEMPO REAL / 132 anos depois, a República ainda não é uma realidade e o país continua sem projeto de nação

O personagem Roque Bandeira, da saga “O tempo e o vento”, do gigante Érico Veríssimo, ironiza em determinado momento do último livro da série, “O arquipélago”, que o problema do Brasil é que o País escolheu o Pedro errado para seguir. No raciocínio burlesco de Bandeira, despachamos Dom Pedro II para Europa, ao proclamarmos a República em 1889, e ficamos com o Pedro Malasartes, o personagem que se utiliza do engano e da esperteza para sempre levar vantagem. Enquanto o outro Pedro, o imperador, era o símbolo da ciência, da cultura e da hombridade. Assim, o jeito Malasartes é o que acabou prevalecendo na nossa construção de país.

A ilustração não é uma defesa da monarquia, mas trata de uma constatação das escolhas que fizemos, ou do caminho que tomamos na tentativa de construir o Brasil sem a tutela de um “pai”, representado pela figura austera, refinada e educada do imperador.

Nossa República nasceu sob os auspícios da ditadura, com Deodoro da Fonseca e depois com o “marechal de ferro” Floriano Peixoto, na chamada República da Espada. Hoje, 132 anos depois e com 36 anos da maior experiência democrática do Brasil, ainda tememos perder a liberdade novamente. Diga-se: outra vez com militares no comando do País, como em alguns dos nossos piores momentos — além da República da Espada, o golpe militar de 1964 e hoje, o bolsonarismo.

O Brasil nunca teve um projeto de nação claro, com metas de médio e longo prazos. Que país queremos ser? Aonde queremos ir? Quais as prioridades para alcançarmos conquistas que visualizamos em 30 ou 50 anos? Sempre aos voos de galinha, em pequenos saltos de bonança para grandes quedas recessivas.

Nos 132 anos de nossa República vivemos hoje o pior momento na falta de projeto de nação. Estamos sob um governo que não sabe onde está, nem para onde vai. Que quixotescamente combate moinhos de vento, em forma de “comunismo”, “ideologia de gênero”, de defesa de uma família idealizada totalmente fora da realidade para um tempo de diversidade, num mundo que busca a inclusão e repudia o preconceito.

Nesse turbilhão confuso, em que a idiotia tomou o devido lugar do conhecimento — não por acaso digo que esta gente implantou a Idiocracia no Brasil —, nossa maior conquista histórica como nação está se esvaindo: a estabilidade econômica, alcançada com o Plano Real em 1994. Fiquei assustado nesse domingo, 14, ao pagar R$ 382 reais para completar o tanque do carro. Em 1997, quando consegui comprar meu primeiro veículo, uma Brasília 1975, pagava por volta de R$ 0,65 no litro da gasolina, que hoje caminha a passo largos rumo aos R$ 7, e a imprensa diz que no Rio Grande do Sul há cidade cobrando R$ 8.

Em julho de 1994, um pão francês custava 9 centavos. Lembro de uma cena do então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, indo orgulhoso a uma padaria de São Paulo tomar seu café da manhã para pagar uma miséria por um pãozinho. Quem viveu as loucuras galopantes da hiperinflação sabe do mal que nos ronda.

Apresentamo-nos diante do mundo como um povo ignorante e insensível ao enfrentarmos com mentalidade medieval uma pandemia que poderia ter feito muito menos vítimas no País, apenas se respeitássemos o que diz a ciência, ao invés de darmos ouvidos a um psicopata inculto, totalmente iletrado e absurdamente despreparado para conduzir o Brasil em seu mais grave desafio.

Sobretudo nossa classe média e nossa elite, sempre fechadas no seu egoísmo preconceituoso e ignorante, sempre preocupada em ter, não em ser, relegou a vida ao quinto plano, ao aceitar a politização que o beócio que está presidente da República [por mais apenas alguns meses, graças a Deus] fez, vislumbrando, na sua limitação intelectual e na sua ausência de humanidade, tão somente o processo sucessório, pouco se importando com seu povo. Claro que essa fatia perversa de nossa população também viu os seus sucumbirem à Covid-19, mas, ainda assim, segue em sua marcha insana de se postar como defensor cego de um sujeito inescrupuloso.

Essa é a diferença dessa militarização da política para os outros períodos históricos. Não dá para comparar o ser indecoroso que hoje ocupa (por mais pouquíssimo tempo) a Presidência com os militares do passado. Deodoro, Floriano e os demais oficiais tinham uma base filosófica que os moviam, o positivismo, o que Bolsonaro, com certeza, não tem a mínima noção do que seja. Castelo Branco e demais militares de seu período também tinham cultura, ao contrário dessa caterva que hoje tomou o Palácio do Planalto de  assalto. E aqui não se trata de uma defesa de regimes antidemocráticos com que os militares de outros tempos perverteram nossa frágil República. É apenas uma constatação de que a versão do que está aí é muito piorada em relação às experiências ruins do passado.

Contudo, é bom que se diga que esse período da Idiocracia terminará em alguns meses. Bolsonaro, como os demais militares políticos de nossa história, será derrotado por um adversário violentíssimo. O mesmo que venceu a República da Espada do século 19 e o golpe militar dos anos 60-70-80 do século 20: a recessão.

A indiferença da classe média e da elite brasileira com a dor das famílias e com as centenas de milhares de vítimas da Covid-19 se deve ao fato de que elas não têm coração, uma vez que as sensações lhes chegam por outro órgão, que, para elas, é o mais importante do corpo humano: o bolso.

CT, Palmas, 15 de novembro de 2021.


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