CLEBER TOLEDO
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TEMPO REAL / Nem Cinthia, nem Wanderlei caíram na arapuca colocada por aliados e adversários

O rompimento é sempre o caminho mais fácil diante de qualquer rusga entre políticos ou gestões. É o óbvio ululante de Nelson Rodrigues: um vai às redes sociais ou provoca alguma fala inadequada na imprensa, o outro rebate no mesmo tom, e cada um segue seu caminho, com total separação de corpos, discursos e grupos. É a saída mais simples, mas também pode ser a menos inteligente. Foi o caso da desavença de 15 dias entre os governos de Palmas e do Estado.

Mais afoita, a prefeita Cinthia Ribeiro (PSDB) replica o estilo de seu antecessor, Carlos Amastha (PSB), e desabafa nas redes sociais aos primeiros incômodos que lhe tocam os instintos. Assim que ocorreram as lamentáveis mortes nas UPAs sem que se conseguisse transferir as pacientes para o Hospital Geral de Palmas (HGP), Cinthia disparou sua metralhadora giratória, tendo como alvo a saúde estadual, com um aviso de que iria à Justiça. E foi.

Bem mais calejado de tanto caminhar por esses terrenos áridos, tortuosos e espinhosos, Wanderlei procurou contemporizar o quanto pôde. Depois de seu secretário da Saúde, Afonso Piva, ir à TV com um discurso mais político que técnico, o governador ainda pediu que a equipe buscasse diálogo com a prefeitura. Cinthia – é bom frisar – descarregou munição pesada contra Piva, mas procurou a todo instante preservar o principal inquilino do Palácio. Afinal, a porta precisava ficar aberta.

Mas o caldo entornou no dia 19 com a decisão da Justiça contra o Estado, na ação movida pela prefeitura, e no dia 20, quando a prefeita colocou nos holofotes o senador Irajá (PSD), adversário número 1 do Palácio, o que foi recebido como clara provocação. Só aí Wanderlei entrou em cena, com recados claríssimos para Cinthia nas falas logo após a visita ao HGP; e todo o staff palaciano começou a levantar barricadas, pôr armaduras e carregar pesados armamentos com munição de grosso calibre. Pareceu que a guerra seria inevitável.

No início da semana passada, um grupo de vereadores de oposição – que já faz um barulho imenso na Câmara – foi até o governador pedir o rompimento. Assim, tudo parecia mesmo que os primeiros confrontos estavam prestes a ocorrer, até que chegou a notícia do encontro que deveria ter sido sigiloso entre Wanderlei e Cinthia, mas a troca de bandeiras brancas foi interceptada por este que vos escreve.

É óbvio que a primeira conversa dos dois na quinta-feira, 25, não foi sobre gestão, ainda que insistam nisso. As divergências devem ter sido postas a limpo num primeiro momento para a parceria entre Estado e município surgir depois, como resultado do armistício.

O fato de o conflito iminente ter sido abortado foi duplamente inteligente: do ponto vista da gestão e da política. Da gestão, porque Estado e município encontraram uma primeira solução paliativa, na parceria com Hospital Padre Luso, para a falta de vagas e sinalizaram para a construção de um hospital municipal, o que é inadiável. Uma promessa de pelo menos 20 anos que nunca se concretiza por um motivo muito simples: falta de vontade política.

Do ponto de vista político, Wanderlei e Cinthia não caíram numa arapuca preparada por aliados e adversários, os dois grupos que torciam para um afastamento definitivo entre os dois. Aos opositores não interessa essa união. As duas máquinas juntas são muito fortes num processo eleitoral. Para aliados, também não é bom. De um lado, há nomes que Cinthia vetará, se houver uma aliança com o Palácio. Já para o governador, um rompimento com o Paço reduziria seu leque de possibilidades e ele poderia ser enredado pelas tramas internas na hora da escolha.

Com Cinthia como parceira administrativa, Wanderlei pode tê-la também como aliada eleitoral, ou ainda dispensar essa aliança no momento certo, caso lhe seja mais interessante. Mas, com a prefeita ao seu lado agora, a força do entorno do governador sobre ele é mais relativa; sem ela, seria mais absoluta.

CT, Palmas, 29 de maio de 2023.


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