CLEBER TOLEDO
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TEMPO REAL / Palmas precisa de túneis de copas de árvores que a tornem menos causticante

No início da minha carreira jornalística, em 1992, fui cobrir uma audiência pública na Câmara de Maringá (PR) para o Jornal do Povo, o primeiro impresso em que trabalhei. Em debate, o conflito entre a arborização da cidade e a iluminação pública. O representante da concessionária, a Companhia Paranaense de Energia (Copel), reclamou que as árvores atrapalhavam a iluminação. As copas estavam se expandindo muito e encobrindo as luzes dos postes, deixando as ruas às escuras. Um idoso ambientalista falou em seguida e, sabiamente, mudou o foco da discussão: “Não são as árvores que atrapalham a iluminação, é a iluminação que atrapalha as árvores”, disse.

Túnel de árvores em rua de Maringá, no Paraná (Foto: Coluna do CT)

Didaticamente, explicou a importância das árvores para oxigenar a cidade, torná-la mais fresca no verão, reduzir a poluição e, claro, para embelezá-la. Os vereadores e a prefeitura deram ouvidos ao ambientalista e adotaram uma solução salomônica para o conflito. Todas as luzes dos postes da cidade foram rebaixadas para que ficassem sob as copas e as plantas não fossem sacrificadas.

Passados mais de 30 anos desse episódio, Maringá é quase toda tomada por árvores, de forma que é possível percorrer dezenas de quadras seguidas à sombra, com as ruas sob um túnel de copas. Fora o nível delicioso de oxigênio e a beleza das vias. Os ipês floridos dão um charme pra lá de especial para o município paranaense, que se destaca entre 168, de 21 países, reconhecidos com o certificado de “Cidade Árvore do Mundo”. O grupo seleto reúne metrópoles como Paris, Turin, Milão, Madri, Nova Iorque e Toronto. Para receber o reconhecimento, é preciso atender critérios como manejo adequado da arborização, incluindo legislação específica, orçamento anual para o setor, ações de conscientização da comunidade, entre outros.

Passei quase todo o mês em Maringá, na casa de minha mãe, e cada vez que andava pelas belas e sombreadas ruas pensava em Palmas. Lembro-me de minha decepção quando plantaram palmeira na JK e Teotônio Segurado. Essa planta é como muitos caciques políticos do Tocantins: não dão sombra pra ninguém. Numa cidade absurdamente quente como a nossa Capital, não é possível só considerar o embelezamento no projeto de arborização. Precisamos de copas enormes, gigantescas, cobrir a rua com túneis naturais, aprazíveis. Quais são as espécies do cerrado que poderíamos plantar? Não sei, e, sinceramente, não entendo nada do tema. Apenas sinto calor, um imenso calor.

O projeto de arborização vai influenciar, inclusive, a economia da cidade. De novo, numa cidade absurdamente quente, onde o consumidor prefere fazer suas compras – que exige peregrinação de loja em loja –: num shopping deliciosamente climatizado ou por uma rua comercial que lhe dá sensação térmica de 50 graus? Resposta óbvia.

O G1 publicou há uns meses uma matéria sobre o tema, para a qual entrevistou especialistas que apontaram o déficit enorme de árvores em Palmas, que se concentram, explicaram, mais em quadras em que não há loteamentos. Conforme esses estudiosos, esse déficit causa um efeito chamado de ilhas de calor, afetando a qualidade de vida, a saúde e o bem-estar da própria população.

Túnel de árvores em rua de Maringá, no Paraná (Foto: Coluna do CT)

O professor Renato Torres Pinheiro, doutor em ecologia, explicou ao G1 que essas ilhas de calor significam que temos um excesso de áreas construídas, de concreto e de asfalto, e um número reduzido de árvores. “Isso faz com que a temperatura nestes locais seja mais alta que a média da temperatura do entorno”, disse.

Palmas precisa de um plano de arborização arrojado para ser tomada por túneis de sombras. Em Maringá, isso é garantido hoje pelas árvores inseridas nas vias públicas há 30 anos ou mais. Na época em que começava no jornalismo, as ruas não estavam todas sombreadas como agora, porque as plantas ainda eram pequenas. Mas cresceram e hoje a cidade paranaense colhe os bons frutos de uma decisão tomada décadas atrás. Isso se chama planejamento.

Palmas pode dentro de alguns anos também pode ser essa referência e assegurar a seus moradores uma cidade menos causticante e ainda muito mais bela do que já é.

Ouvi falar de um projeto assim na gestão Carlos Amastha (PSB), que conhece profundamente o projeto de Maringá, cidade onde tem investimentos. Mas nunca tive notícia se saiu do papel. Um ambientalista me disse esses dias que a proposta está repousando em alguma gaveta. Pena.

Tornar Palmas também uma “Cidade Árvore do Mundo” é só questão de mera vontade política.

Palmas, 30 de maio de 2023.


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