CLEBER TOLEDO
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JOSÉ CÂNDIDO PÓVOA / Banzo ou saudade

       Quando criança aprendemos que os sentimentos nascem no coração. Agora, já com a grande e maior parte do caminho percorrido, começo a entender que nascem, primeiramente, na alma e numa conexão que não sabemos explicar, explode nos batimentos do coração.

         E um dos principais deles seria a saudade? Creio que sim, afinal trata-se de um sentimento que considero um dos mais nobres do ser humano. Pincei o poema intitulado “Saudades” do meu livro Poemas Azuis que retrata um pouco esta realidade: Hoje meu coração amanheceu frágil e fértil/ Sentindo saudades de quem não merece saudades/ Mas quem sou eu para desafiar meu coração/ E não sentir saudades de quem merece saudades?

           Isso que me remete, inexoravelmente, para alguns acontecimentos que interferiram em minha vida, dentre eles o de que o Colégio João D’Abreu, em Dianópolis, realizava anualmente um retiro espiritual coordenado por padres Jesuítas, que se deslocavam de Belo Horizonte para essa finalidade. Era uma semana de completo recolhimento espiritual e de várias descobertas vocacionais, nas mulheres para serem freiras, em nós homens, para sermos padres. Não fugi à regra.  Entre os doze para treze anos, empolgado com a pregação e oratória daqueles exímios mensageiros do Evangelho, após o consentimento feliz dos meus pais (afinal teriam um padre na família), desloquei-me para Belo Horizonte, a capital mineira e passei a ser seminarista no Colégio Inácio de Loyola, localizado no na Avenida Contorno, centro daquela bela cidade.

           Tratava-se do primeiro afastamento do meu querido lar, onde junto aos meus outros nove irmãos a vida se transformava num paraíso aqui na terra. No começo, cidade grande, tudo novidade. Com o passar dos dias, comecei a sentir que seria impossível viver distante das pessoas e das coisas que tanto amava. Meus pais, irmãos, meu quintal, os amigos de infância, o amanhecer e entardecer na minha cidade, as noites de luar…  A saudade passou a ser companheira do meu cotidiano.

          Todas as manhãs, sozinho num apartamento daquele seminário, lembrava-me da grande cozinha e do farto café da manhã de minha casa, acompanhado de deliciosos bolos preparados pelas mãos mágicas de fadas da minha querida mãe e de Felizarda (Dadinha, uma irmã  e mãe adotiva que a vida nos deu).

           Na hora das refeições, tendo como companhia apenas um colega seminarista sentia falta da reunião de todos da minha casa em volta da grande mesa, que mais lembrava um momento solene, onde disputávamos o privilégio de servirmos um copo d’água pós refeição para nossos pais. Foi lá que aprendemos que aquela era uma hora sagrada de silêncio e de educação, pois qualquer pedido vinha acompanhado de um “por favor, me passe esse prato ou esse talher…” e assim por diante.

          Ao entardecer, meu quintal, com múltiplas árvores, vinha bater forte em minhas lembranças que se ligavam diretamente em minha alma. Até o farfalhar das folhas fazia falta ao meu coração. O canto das aves buscando seus ninhos para a noite atingiam de cheio meu coração.  Comecei a me sentir num deserto. Abandonado. Sozinho. E a pior solidão é aquela onde você encontra-se rodeado de pessoas e fatos que não lhe interessam. Havia um desencontro total comigo mesmo, nada fazia sentido…

          Até o dia que recebi a visita do primo José Liberato, que à época residia e estudava na mesma cidade. De tudo ele fazia para distrair-me, levando-me nos finais de semana ao cinema, para conhecer locais e atrações diferentes pela cidade afora, tudo de ônibus, pois não tínhamos carro. Mas a saudade da minha terra e minha gente falava mais alto e gritava dentro de minha alma. Resolvi abrir-me e confessar ao primo que sabendo ser eu descendente de negros e índios, se ali permanecesse, estava fadado a morrer de “banzo” (saudade que dizimava os escravos longe de sua terra). Como não existia telefone em minha cidade natal, tudo se resolveu por telegramas.

         Retornei à minha terra natal. Na chegada senti no abraço dos meus pais, que eles preferiam um filho próximo a um padre distante e voltei a encontrar-me com detalhes que antes não dava tanto valor (as pessoas costumam ser assim).   Mas, agora, refletindo bem: se padre pudesse casar e ter ao seu lado uma esposa companheira como a que tenho, filhos(a) amigos(a) que me acompanham, netas(o) que alegram meus dias, com certeza, hoje, nossa numerosa família contaria com um padre.


JOSÉ CÂNDIDO PÓVOA
É poeta, escritor e advogado; membro-fundador da Academia de Letras de Dianópolis.
candido.povoa23@gmail.com


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