Caros tocantinenses,
Há exatos 37 anos nascia o Tocantins, fruto de uma luta e de um sonho seculares que movimentaram diversas gerações. Não temos do que reclamar da criação do Estado. Tirou o antigo norte goiano do total abandono, as cidades se desenvolveram, temos uma das capitais mais lindas do País e os indicadores sociais melhoraram, sem dúvida, ainda que estejam muito longe do ideal. Contudo, senhoras e senhores, poderíamos ter avançado, incomparavelmente, muito mais se tivéssemos líderes melhores. Repito o que sempre tenho dito: nossa maior crise é de liderança.
Mais um aniversário em que vemos nosso Tocantins de gente honesta e trabalhadora chafurdado num profundo lamaçal de insegurança política e jurídica, justamente pela pequenez de seus comandantes. Em 2026 vai completar 20 anos que um governador não consegue terminar o mandato. Em 16 anos, cinco deles foram cassados, renunciaram ou acabaram afastados pela Justiça. Nesse período, o Estado teve sete diferentes chefes de Executivo — na média, um a cada pouco mais de dois anos.
Aos olhos da opinião pública tocantinense, falta a seus políticos hombridade na condução da coisa pública. Não tenho dúvida de que temos muita gente de caráter e capacidade para administrar o Estado. Mas a força da máquina e a dependência do poder público de grande parte de nosso povo jogado à sorte em pequenas cidades sem nenhuma outra perspectiva de vida fazem com que os qualificados sejam sempre preteridos na hora do voto.
O Tocantins, a cada afastamento desses, me remete ao exemplo de Sodoma e à insistência de Abraão para que Deus não a destruísse. “Exterminarás o justo com o ímpio?”, perguntou ao Senhor o líder hebreu. Ele, então, começa a descer a escala da moralidade, e pergunta se Deus destruiria a cidade se houvesse pelo menos 50 justos, e a resposta é não; mas se tivesse apenas 40, 20 e, por fim, 10? Mas não havia, e sabemos todos que o que ocorreu por lá.
Será que, no que diz respeito a seus líderes, o Tocantins se converteu numa espécie de Sodoma da vida pública nacional, em que os representantes eleitos só buscam o poder para enriquecimento próprio? Para transformar a máquina em cabide para parentes e cupinchas? Será que não temos aqui 50, 40, 20 ou mesmo 10 homens públicos de caráter e honradez para focar no sofrimento do nosso povo e não nas oportunidades fáceis asseguradas pelo domínio do erário?
Acredito que temos, sim. Mas são, lamentavelmente, engolidos, como afirmei acima, por uma máquina viciada em favorecer quem a detém e pela ilusão que enreda nossa gente martirizada por mazelas sociais históricas, por uma exclusão secular, que a obrigam a pedir a benção diariamente aos mesmos coronéis que a condena a uma vida desafortunada.
Que os homens de bem deste Estado, que verdadeiramente o amam, possam se levantar num movimento de resgate dos princípios que mobilizaram os grandes heróis de nossa história. Só assim poderemos ter motivos um dia para comemorar o aniversário do Estado — que, diga-se, ganhará de presente neste domingo uma enlamaçada reportagem no Fantástico, com os indícios de toda a sordidez que nos jogou em mais um momento de vergonha extrema.
Saudações democráticas,
CT
















