Caros deputados e senadores tocantinenses,
Desde moleque sou apaixonado pela política. Aos 12 anos participei de minha primeira campanha como cabo eleitoral de um amigo de meu pai que tentava se tornar vereador, lá nos idos de 1982. Acabou derrotado. Mais tarde, já no movimento estudantil, curtindo os primeiros respiros da recém-parida democracia brasileira, dei graças que o sujeito perdera. Afinal, ele era do PDS, partido da ditadura. Mas, claro, há 43 anos não tinha noção disso.
De garoto, sem saber coisa alguma, já acompanhava os movimentos dos Legislativos e da história nacional, como a volta das greves em plena ditadura, com os metalúrgicos liderados por um barbudo chamado Lula; a eleição indireta que marcou a redemocratização e, aos 15 anos, chorei a morte de Tancredo Neves.
Depois veio a esperança com o Plano Cruzado em 1986, que fracassou mesmo vigiado de perto pelos “fiscais do Sarney”, como saíram derrotadas todas as tentativas seguintes de segurar a hiperinflação, o que só conseguimos com o Plano Real em 1994. Antes, tivemos que cassar o primeiro presidente eleito. Lá estava eu em meio aos caras-pintadas, desta vez com um bebê de alguns meses no colo, meu primogênito.
Com a Constituinte, um novo país surgiu. Já percebia um pouquinho melhor as coisas e via um Brasil progressista com gigantes do tipo Mário Covas, André Franco Montoro, Fernando Henrique Cardoso, Lula, Brizola, Florestan Fernandes (olha o tamanho dessa representação!), José Genoíno, Miro Teixeira, Paulo Paim, Roberto Freire (no auge da lucidez, hoje anda meio estranho), Pedro Simon e, claro, o Senhor Democracia, Dr. Ulysses Guimarães.
Mesmo à direita, ainda que os visse como representantes da ditadura camuflados de democratas por mera conveniência, não dá para comparar um Jarbas Passarinho, Roberto Campos, Álvaro Valle, Antônio Carlos Magalhães e Delfim Netto com essa laia que hoje está aí na extrema direita e no Centrão dinheirista. São os mesmos filhotes da ditadura disfarçados de democratas, mas sem a sólida formação e conteúdo de seus antecessores. Os atuais filhotes da ditadura são um claro e inegável sintoma da deterioração política e moral da sociedade brasileira. Nos nivelamos por baixo, pelo que há de pior.
Os debates eram incríveis naqueles tempos. O nível discussão, a qualidade dos argumentos, da oratória, da postura. Não é à toa que tenha sido essa geração de grandes personalidades — à direita e à esquerda –, apesar de todas as suas divergências, que nos deu a Constituição Cidadã de 1988, repleta de conquistas sociais.
Penso como seria se os políticos de hoje, caracterizados por seu espírito público pequeno, postura de “caixeiros viajantes”, avessos à democracia — apesar de a palavra não sair de suas bocas –, tivessem que elaborar uma constituição. Não tenho a menor dúvida de que teríamos anos e anos de retrocessos sociais, com os balcões de negócios funcionando a pleno vapor, atropelando todo e qualquer interesse público, e as pautas das elites contra a população mais desprotegida prevalecendo. Teríamos um SUS, que é nosso orgulho, nos salvou na pandemia e nos salva diariamente? Teríamos universidades públicas de qualidade e gratuitas? Teríamos um Ministério Público forte, uma Polícia Federal livre para correr atrás de corruptos?
Não dá para comparar a atual geração de políticos com aquela. É até um desrespeito aos gigantes da nossa história tal ousadia. Esta jamais poderia nos dar a Constituição que temos, imperfeita, mas com avanços inegáveis e fundamentais.
E o que vimos nessa terça-feira na Câmara dos Deputados é uma pequena demonstração disso. Ao invés de estarem votando conquistas sociais, os parlamentares aprovaram anistia disfarçada e envergonhada para aqueles que tentaram destruir a democracia conquistada com muita luta e sacrifícios pelos grandes vultos de 40 anos atrás. Ao invés do fim da jornada 6×1, para acabarmos com a escravidão moderna que aprisiona milhões de trabalhadores, estavam espancando colegas deputados e jornalistas. Para tamanho absurdo, até tiraram a TV Câmara do ar, o que não ocorria desde a redemocratização!
Ainda teve a aprovação da PEC do Marco Temporal, um ataque direto à população indígena, sempre colocada em quinto plano, até mesmo quando se trata de tentar resguardar as terras que lhes sobraram — e olhe que o Tocantins tem dez etnias e todos os políticos adoram ir às aldeias em campanha, tirar fotos e divulgar todo seu “amor” por elas. Mas a prática mostrou outra coisa. O agronegócio manda e desmanda nas Casas Legislativas, como, aliás, desde seus antepassados senhores de escravos do Brasil império.
Lamento, mas preciso dizer-lhes que esta legislatura é a pior da história do Brasil, desde maio de 1823 quando o imperador Dom Pedro I instalou pela primeira vez o Congresso Nacional. Como cidadão brasileiro, tenho vergonha de nosso Parlamento. Ele representa interesses de lobbies e dos próprios parlamentares — como deixam claro a PEC da Bandidagem e as medidas para que os membros se apropriem cada vez de fatia maior do Orçamento, num vale-tudo por emendas –, mas nunca os verdadeiros interesses da maioria de nossa população. Assim, mais que ser a pior da história, esse Congresso é inimigo de seu povo.
Não tenho a menor dúvida de que vivemos o momento mais baixo da nossa história política, com os destinos do País nas mãos de personalidades tão diminutas, sem espírito público, sem apreço à democracia, sem sede de justiça social, como as que estão nesse Congresso Nacional.
Isso é triste, mas ainda temo pelo que vem pela frente.
Saudações democráticas,
CT
















