Não é preciso uniforme pardo para que a história trema.
O nome Donald Trump não surge como eco de um passado idêntico, mas como sintoma de um presente inquietante.
Não se trata de repetir Adolf Hitler, porque a história não se repete em fotocópia; ela se reinventa em novas linguagens, novas tecnologias, novas estratégias de poder.
O perigo, dizem alguns, não está no grito — mas na erosão.
Na repetição insistente de que a eleição só é legítima quando vence o líder.
Na naturalização do insulto como método.
Na ameaça transformada em espetáculo.
Na dúvida lançada sobre as instituições até que elas pareçam frágeis demais para serem defendidas.
O trumpismo não inaugura o autoritarismo; ele o moderniza.
Veste-o de populismo performático, envolve-o em nacionalismo inflamado, oferece-o como mercadoria emocional. A democracia continua de pé — mas com os joelhos gastos. As eleições acontecem — mas sob suspeita permanente.
A imprensa fala — mas sob ataque contínuo.
Não é a marcha militar que assusta; é o desgaste cotidiano.
Há algo filosoficamente perturbador nisso: aprendemos com o século XX que o mal pode atingir o abismo absoluto.
E, ainda assim, o aprendizado não nos vacinou contra novas formas de declínio. O risco contemporâneo talvez não seja o campo de extermínio, mas a corrosão lenta das garantias, o enfraquecimento dos freios, a captura das narrativas, a manipulação do medo coletivo.
O culto à personalidade substitui o debate.
A fidelidade ao líder supera a lealdade às regras.
A violência deixa de chocar e passa a ser relativizada.
E assim, sem tanques nas ruas, a democracia pode adoecer.
O nome Trump não é, por si só, a catástrofe. O que inquieta é o método. O precedente. A pedagogia da suspeita permanente. A ideia de que perder é fraude e governar é dominar.
O século passado nos deu um limite trágico.
O presente nos testa na vigilância.
A história não pergunta se já vimos coisa pior.
Ela pergunta se estamos atentos agora.
De uma coisa tenho toda a certeza: o mundo ficou mais inseguro com Trump!
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.














