Muitos a chamam de melhor idade, outros de velhice, isso depende do conceito de cada um e como tem vivido a dádiva chamada vida. Mas é na última quadra da vida que o silêncio e a solidão deixam de ser circunstâncias e se tornam condições do pensamento. Não são apenas a ausência de sons, são a retirada das distrações que durante décadas nos mantiveram voltados para fora. A vida inteira foi diálogo com o mundo e a velhice abre o diálogo conosco mesmo.
Quando jovens, confundimos movimento com sentido. Corremos, acumulamos, opinamos. O barulho externo sustenta a ilusão de que estamos no centro das coisas. Mas o tempo, esse construtor paciente, vai desbastando as arestas da vaidade e nos conduz, pouco a pouco, a um território mais essencial. O silêncio e a solidão surgem, então, não como castigo, mas como método.
Há uma verdade que só se revela quando cessam os aplausos e as disputas: somos, em última instância, companhia de nós mesmos. A velhice apenas explicita aquilo que sempre foi condição humana.
No recolhimento e no silêncio interior percebemos que muito do que nos inquietava era ruído, expectativas alheias, urgências artificiais, desejos emprestados.
O silêncio e a solidão tornam-se, então, uma forma de depuração. Nele, as memórias não gritam, apenas amadurecem.
As culpas, por acaso existentes, perdem o peso dramático e se tornam compreensão. As conquistas já não acendem o orgulho e a vaidade, mas repousam e se tornam etapas concluídas. A solidão funciona como um laboratório da consciência: é ali que o ser se interroga sem testemunhas e sem máscaras.
Talvez por isso a velhice precise do silêncio, e muito silêncio, principalmente e, também, interior. Não por fraqueza, mas por profundidade. A alma, depois de atravessar tantas estações, já não se satisfaz com superficialidades. Busca o essencial e o essencial fala baixo, apenas sussurra na alma.
No fim, compreendemos que a solidão não é o oposto da vida social, mas o complemento dela.
É no recolhimento que nos reintegramos ao vivido, nos reconciliamos com o tempo e aceitamos a própria e inadiável finitude com lucidez.
O silêncio não é vazio, é consciência expandida em comunhão com o espírito. A solidão não é isolamento, é a última forma de liberdade.
“Quem tem ouvidos que ouça, quem tem olhos que veja!”
JOSÉ CÂNDIDO PÓVOA
É poeta, escritor e advogado; membro-fundador da Academia de Letras de Dianópolis.
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