É horrível assistir à agonia da esperança. Ela não morre de uma vez, não tem direito a último discurso nem a testamento público; vai minguando em transmissões ao vivo, em notas oficiais, em mapas coloridos com setas e números de mortos.
A esperança, que um dia vestiu a fantasia de “comunidade internacional”, hoje espera numa sala sem janelas enquanto os donos do mundo negociam mais uma exceção às regras que eles mesmos escreveram.Trump volta ao trono do império como se o século XXI fosse um reality show de vingança.
Fala de força, de grandeza, de interesse nacional como quem distribui sentenças sem tribunal, e cada aplauso é um tijolo a mais no muro contra qualquer projeto de humanidade comum. Israel, cercado de fantasmas e cercando um povo inteiro, bombardeia não só casas, hospitais e escolas, mas as próprias palavras “direito”, “proporcionalidade”, “civil”. Em Gaza, o chão é feito de escombros e a lei internacional é só um papel rasgado voando sobre a fumaça.
Do outro lado, o Irã e Israel dançam à beira de uma guerra maior, trocando drones, mísseis e ameaças que atravessam fronteiras como se o planeta fosse um tabuleiro descartável.
Uma guerra de doze dias já redefiniu o medo: agora é possível bombardear diretamente o território do outro, experimentar a catástrofe em escala reduzida, ensaiar o fim do mundo em capítulos.
No meio, populações inteiras servem de escudo, de recado, de estatística. O Oriente Médio não é mais um lugar: é um laboratório de até onde a humanidade aguenta sem desmoronar. No Líbano, entre ruínas econômicas e explosões antigas, o conflito escorre pela fronteira, sobe pelos vales e pelos prédios, mistura Hezbollah, Israel, Irã, Gaza, Estados Unidos, todos falando em segurança enquanto multiplicam o desabrigo.
O país, já ferido pela crise e pela explosão do porto, agora contabiliza prédios destruídos, bairros esvaziados, novas ondas de refugiados internos, uma trégua frágil e um futuro pendurado em negociações que ninguém garante.
As pessoas atravessam a cidade entre sirenes, panela vazia e uma eleição prometida como se um presidente pudesse, sozinho, recolher do chão os cacos de uma promessa de Estado.
E enquanto isso, no coração da África, o Congo sangra há décadas numa guerra que quase nunca vira manchete. Milhares de mortos, milhões de deslocados, campos de refugiados crescendo em torno de cidades como Goma, mulheres e crianças fugindo sem saber para onde, hospitais destruídos, fome como arma silenciosa.
A cada novo avanço de grupos armados, a ONU pede bilhões em ajuda humanitária, remenda o que pode, mas não consegue impedir que o número de deslocados passe dos seis milhões, nem que a violência atravesse fronteiras, contaminando países vizinhos.
Se Gaza é o grito, o Congo é o gemido constante que o mundo aprendeu a ignorar.
A ONU, aquela velha senhora vestida de azul, ainda tenta levantar a voz, mas seu microfone está ligado a um cabo que termina na mão de cinco países. Cada veto é uma mordaça colocada na boca do mundo.
Resoluções nascem mortas, relatórios são enterrados em arquivos digitais, comitês escrevem com rigor, mas as letras escorrem pelas frestas do poder como água em parede rachada. As regras internacionais, outrora celebradas em conferências e cátedras, hoje são como placa de trânsito em estrada de tanque: ali, mas sem poder.
O mais doloroso é perceber que não é falta de linguagem, nem de provas, nem de tratados. Tudo está escrito, assinado, ratificado: convenções de Genebra, estatutos de cortes, relatórios sobre Gaza, Congo, Líbano, Irã, Israel.
O que falta é vergonha. Falta a disposição mínima de olhar um corpo sob os destroços e reconhecer: aqui termina qualquer argumento geopolítico. Mas o corpo vira estatística, a estatística vira gráfico, o gráfico vira “dano colateral”, e a esperança, mais uma vez, engole em seco.
No entanto, ela não desaparece. A esperança é teimosa: muda de endereço, sai dos palácios de vidro e procura abrigo nas cozinhas, nas salas de aula, nas pequenas assembleias de bairro, na mesa do escritor que insiste em chamar as coisas pelo nome.
Talvez ela tenha entendido que os grandes fóruns do mundo, capturados pelos que mandam matar em nome da ordem, já não são sua casa. Talvez a esperança agora more na recusa de se acostumar, no silêncio que se recusa a ser omisso, na mão que escreve quando tudo manda calar.
Eu, que olho esse cenário com olhos cansados de professor, de leitor, de cidadão, sinto uma vertigem entre o cinismo e o cuidado. Seria tão fácil declarar o fim: “o direito internacional não serve para nada, a ONU é um teatro, e pronto”. Mas há algo de perigoso nessa sentença definitiva, porque ela entrega o palco inteiro a quem já concentra a luz, o som e a plateia.
Talvez a tarefa seja outra: reconhecer que a esperança está em agonia, mas permanecer à sua cabeceira, anotando seus delírios, suas últimas palavras, seus lampejos. Enquanto Gaza arde, enquanto o Líbano tateia entre guerra e reconstrução, enquanto o Congo se desloca em massa na fuga interminável, enquanto Irã e Israel ensaiam novas maneiras de destruir‑se, enquanto presidentes brincam de deuses mal‑humorados, eu me sento para escrever este prosema como quem acende uma pequena vela num apagão global.
Não para iluminar o mundo, que é grande demais, mas para que, ao menos aqui, nesta página, a esperança ainda tenha um lugar para respirar. Mesmo ofegante, mesmo ferida, mesmo descrente. Porque se ela morrer também em nós, então, sim, o mundo terá piorado de forma irreversível.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.















