A tarde escorria como uma suave brisa e eu caminhava sem pressa, carregando pensamentos diversos, quando vi aquele senhor curvado. Mas não apenas pela idade. Havia naquele corpo alquebrado e em forma de arco, como se sustentasse histórias que o mundo não teve tempo de ouvir. Seus movimentos eram lentos, porém exatos, como se cada gesto obedecesse a um ritmo antigo, aprendido não nos livros, mas na própria persistência da vida.
Abaixava-se. Recolhia. Guardava. E tornava a caminhar. Latinhas vazias, amassadas, esquecidas e ou jogadas e esmo na rua e em seu caminho. Eram pequenas lembranças de instantes alegres ou tristes vividos por outras pessoas. Restos de risos apressados, de encontros que não se prolongaram, de sedes que foram saciadas sem jamais tocar o essencial. O mundo as deixou para trás, como faz com tantas coisas. Como faz, tantas vezes, com aquilo que sentimos ou com a gente mesmo.
Mas ele não. Havia uma delicadeza quase invisível em suas mãos. Não era apenas o gesto de quem coleta, era o gesto de quem reconhece. Como se ao tocar cada pedaço de metal, percebesse ali um eco, um vestígio, um fragmento de algo que ainda insiste em existir, mesmo depois de descartado.
E foi então que me ocorreu, não como um pensamento, mas como uma espécie de revelação silenciosa, que aquele homem recolhia mais do que latas. Recolhia ausências. Recolhia descuidos.
Recolhia aquilo que sobra quando o cuidado falta. Cada latinha, já amassada, parecia carregar um pequeno abandono: uma palavra que não foi dita, um gesto que não aconteceu, uma presença que se fez breve demais. E ele, sem saber, ou talvez sabendo profundamente, juntava tudo isso com a paciência de quem acredita que nada é totalmente perdido.
Um saco às costas, que aos olhos apressados pesava de metal, parecia, na verdade, cheio de histórias interrompidas. Quantos sentimentos caberiam ali? Quantos afetos amassados, quantas delicadezas pisadas, quantas intenções esquecidas no chão da pressa do dia a dia?
Havia, naquele ofício silencioso, uma espécie de redenção. Porque enquanto o mundo insiste em descartar, alguém precisa recolher. Enquanto muitos passam, alguém permanece. Enquanto tanto se perde, alguém, ainda que invisível, se dedica a resgatar. E talvez seja essa a mais humilde e mais grandiosa das tarefas humanas: Transformar abandono em possibilidade. Dar destino ao que parecia não ter mais sentido. Oferecer ao descartado uma segunda chance de existir.
E a noite veio como se também quisesse observar melhor aquela cena. A penumbra envolvia o homem, desenhando nele uma espécie de dignidade silenciosa, dessas que não pedem reconhecimento, porque já se bastam. E o catador de latinhas seguiu passo a passo. Curvando-se, levantando-se, insistindo.
E eu permaneci ali por alguns instantes, imóvel, como quem foi tocado por algo que não sabia nomear. Percebi, então, com uma clareza quase dolorosa, que também nós deixamos coisas pelo caminho. Não apenas objetos, mas partes de nós mesmos. Atenções que não demos, palavras que adiamos, afetos que julgamos pequenos demais para oferecer. E alguém, em algum lugar, talvez esteja recolhendo tudo isso. Ou talvez não.
Talvez muito se perca para sempre. Mas, naquela tarde-noite, sob aquela quase penumbra, tive a sensação rara de que nem tudo está condenado ao esquecimento. Há quem recolha. Há quem veja valor no que foi deixado. Há quem, em silêncio, recuse a lógica do descarte.
Quando voltei a caminhar algo em mim havia sido tocado, ou talvez recolhido. Uma sensibilidade esquecida, um olhar mais atento, uma espécie de cuidado que eu mesmo havia deixado cair pelas ruas da vida. Naquele dia não encontrei apenas um homem. Encontrei um ofício invisível. O de resgatar o que ainda pode ser sentido.
O de lembrar, ao mundo apressado, que até o que parece vazio ainda carrega dentro de si a possibilidade de recomeço. E aquele senhor desapareceu no final da rua, levando milhares de latinhas amassadas e carregadas de sentimentos descartados e prontos para serem, também, reciclados.
“Quem tem ouvidos que ouça, quem tem olhos que veja!”
JOSÉ CÂNDIDO PÓVOA
É poeta, escritor e advogado; membro-fundador da Academia de Letras de Dianópolis.
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