No Ceará, em algum momento depois da extinção dos dinossauros e logo após o golpe de 64, existiu uma adolescente que gostava de escrever. Que lia muito para poder escrever melhor. Que mal ouvia as palavras que seu único irmão e amigos falavam nos barzinhos da vida, corria para o banheiro mais próximo e as anotava em uma minúscula caderneta que carregava consigo.
Eram tantas palavras novas e sonoras que muitas se perdiam nessa frenética trajetória. Quem a visse nesse vai e vem poderia até suspeitar de incontinência urinária. Mas isso seria um quadro incompatível com a realidade dos fatos e sua jovialidade. O que se tinha ali era sede de conhecimento que só se esgotava quando ela chegava em casa, abria o velho, enorme e bom dicionário de capa preta, localizando uma a uma as palavras rabiscadas às pressas, assimilando o significado delas.
Achando que dominava as descobertas semânticas feitas, aguardava ansiosa a próxima “aula”. Diante dos olhares incrédulos e jocosos do grupo de universitários, a impertinente colegial jogava todo o conhecimento adquirido, fazendo uso – ao seu sentir – das palavras mais adequadas ao assunto em debate.
Pela reação dos ouvintes, acertava mais do que errava. Ela passou a ser quase um animalzinho de estimação do grupo; uma ratinha de Pavlov que estava condicionada a participar e a intervir mediante a apresentação de um estímulo: a palavra nova.
Com o tempo, apesar da diferença de idade e de experiências, ela foi se integrando ao grupo. As “aulas práticas” foram ficando mais frequentes e os laboratórios se ampliaram com as luaradas na areia da praia, as tertúlias e os bailes de sábado à noite, sempre sob o olhar atento e discreto do irmão.
Ele estabelecia a hora em que deveriam se encontrar e ameaçava antecipadamente ir embora se ela não fosse pontual. Caso contrário, nunca mais a levaria com ele e fatalmente a mãe não lhe deixaria mais sair, única filha mulher que era. Isso serviu para ela forjar seu senso de responsabilidade e autonomia, além de ficar bem rígida no cumprimento de prazos e administração do tempo, chegando sempre minutos antes do horário fixado.
Ele também passou técnicas de sobrevivência na selva da época: em locais fechados, verificar logo ao chegar as saídas de emergência e se posicionar o mais próximo de uma delas. Em casos de brigas no salão e/ou batidas policiais, se esconder sob a mesa até a confusão acabar. No decorrer da vida universitária e adulta, diversas vezes fez uso desses ensinamentos, os quais se mantém atuais em tempo tão difíceis.
Ele fez a sua iniciação cultural de uma forma ampla e diversificada. Em decorrência, leu Machado de Assis, Marx, Paulo Freire, Nelson Rodrigues e Jorge Amado, dentre outros. Ouviu Elvis Presley, Beatles, Chico Buarque, Gilberto Gil, Bethânia e Gal. Acompanhou em preto e branco os festivais de música, enquanto a vida era uma efervescência contínua em anos de chumbo, nada dourados.
Passado tanto tempo, ele não está mais fisicamente com ela. Os amigos se dispersaram e muitos também já se foram. A morte é a certeza mais democrática do mundo, mas a sua distribuição é uma incógnita. Ela ignora cronogramas, maturidade e conveniência, deixando quem fica com o peso do incompreensível. No fim, quando as lágrimas deram trégua à exaustão, restou apenas uma certeza absoluta: quem se foi, independentemente do tempo que teve na Terra, recebeu um amor infinito. E esse amor, puro, vasto e sem reservas, lhe bastou. Quem partiu não levou as respostas que os vivos tanto buscam, mas levou a experiência plena de ter sido amado.
Aquela menina, hoje uma mulher que tinge os cabelos, ainda existe. Dá até medo pensar no que ela teria feito lá atrás, com um celular na mão, o Google ao seu alcance e um irmão que lhe ensinou a ler o mundo. Nada teria sido como foi e certamente ela não seria a pessoa que se tornou. Fechando os olhos, ainda é possível voltar ao tempo em que só havia um irmão, a caderneta de anotações e uma vontade absurda de saber o significado das palavras, a hora, o lugar e a forma como elas devem ser usadas.
Obrigada, irmão.
ROSANNA MEDEIROS FERREIRA ALBUQUERQUE
É procuradora do Estado aposentada.












