A máxima de Celso Furtado ecoa com precisão cirúrgica na realidade tocantinense: “O desenvolvimento econômico é, fundamentalmente, um processo de incorporação e difusão de progresso técnico.” Hoje, a riqueza natural do Tocantins é inegável, mas ela precisa se transformar em valor agregado. Sem a indústria de transformação, o estado permanece vulnerável à matemática fria das commodities, exportando o seu futuro e limitando a ascensão social do trabalhador do campo. A virada de chave está nas mãos do poder público. Cabe ao Estado desenhar o ecossistema dessa transição, desburocratizando o crédito para agroindústrias de médio porte, blindando o mercado local através de compras governamentais inteligentes e garantindo que a inovação saia dos laboratórios de pesquisa e encontre o chão de fábrica.
Existe um princípio da economia que explica por que algumas nações enriquecem enquanto outras trabalham cada vez mais para comprar cada vez menos. Chama-se elasticidade-renda da demanda e compreendê-lo é indispensável para quem pensa seriamente no futuro do Tocantins.
A ideia, em sua essência, é simples, quando a renda de um país cresce, a demanda por determinados produtos sobe muito além do crescimento da renda, enquanto a demanda por outros mal se move. Alimentos básicos, grãos, minérios, petróleo bruto, ninguém vai comer três vezes mais arroz porque ficou três vezes mais rico. A elasticidade-renda desses produtos é baixa, inferior a um, também chamados de inelástico em relação à renda. São bens que o mundo continuará comprando, mas sem o entusiasmo que os mercados de alto valor reservam para outros produtos.
Do outro lado da equação estão a tecnologia, o design, os softwares, os fármacos, os serviços financeiros e os bens manufaturados sofisticados. A cada dólar adicional gerado pela economia mundial, uma parcela crescente migra para esses produtos, porque sua elasticidade-renda é alta, superior a um, chamados de bens elásticos em relação à renda. São bens que o mundo compra cada vez mais, e paga cada vez melhor.
O problema estrutural do Brasil reside exatamente nessa assimetria. O país que vendeu soja, minério de ferro e carne ao mundo no boom das commodities dos anos 2000 colheu crescimento no curto prazo, mas pagou um preço elevado no médio e longo prazo, isso significou que a valorização cambial desindustrializou setores inteiros, encareceu exportações de manufaturados e fragilizou a base produtiva do país. Os economistas chamam esse fenômeno de doença holandesa, em referência ao que ocorreu com a Holanda após a descoberta de vastas reservas de gás natural nos anos 1960. A entrada de divisas valorizou a sua moeda, destruiu a competitividade da indústria holandesa e mostrou ao mundo que nem toda riqueza natural é um presente sem custo.
No Brasil, a história se repetiu com o boom das commodities. E enquanto Coreia do Sul, Taiwan e China usaram seus recursos primários como degrau para construir indústrias competitivas e inserção nos mercados de maior valor agregado, o Brasil consolidou uma estrutura exportadora que, paradoxalmente, trabalha mais para arrecadar menos em termos relativos.
O Tocantins no epicentro dessa armadilha
O Tocantins é um microcosmo eloquente desse dilema nacional. Estado jovem, de grandes dimensões e vocação agropecuária reconhecida, o Tocantins figura entre os maiores produtores de soja, milho, arroz irrigado e bovinos do Brasil e mais recentemente o mineral ouro. Exporta riqueza em estado bruto, e importa, silenciosamente, a pobreza que resulta de uma pauta produtiva confinada ao setor primário.
A lógica é cruel na sua precisão, o grão embarca em Porto Nacional ou outro município do estado, percorre milhares de quilômetros até o porto de Itaqui ou Santos, atravessa o Atlântico e chega a uma indústria no exterior que o transformará em óleo refinado, farinha proteica, ração premium ou biocombustível de alta especificação. A riqueza que poderia fincar raízes no Tocantins, os empregos qualificados, os impostos, a renda industrial e o efeito multiplicador sobre o setor de serviços, emigra junto com a matéria-prima. Ao estado, restam a terra desgastada, a água consumida e um trabalhador rural sem perspectivas de ascensão na cadeia produtiva.
Não se trata de condenar o agronegócio, seria um equívoco estratégico e uma injustiça histórica com os agricultores tocantinenses, que construíram uma das agriculturas mais produtivas do cerrado brasileiro com investimento, risco e inovação genuínos. O agronegócio é e seguirá sendo a espinha dorsal da economia do estado. A questão, porém, é outra: até quando o Tocantins se contentará em exportar a matéria-prima e renunciar ao valor que ela pode gerar?
Industrialização não é ideologia, é matemática
A resposta ao problema não reside na retórica desenvolvimentista dos manuais do século XX, mas na matemática fria da elasticidade-renda. Cada etapa adicional de processamento, do grão ao óleo, do óleo ao bioplástico, da soja ao isolado proteico funcional, eleva exponencialmente o valor agregado por tonelada e transforma o perfil da mão de obra exigida. Esse avanço gera os chamados encadeamentos de Albert Hirschman: efeitos multiplicadores onde o investimento em um setor estimula e financia novas atividades econômicas. Trata-se de uma dinâmica que opera tanto para trás (demandando insumos, máquinas e energia) quanto para frente (impulsionando logística, embalagens, distribuição e marketing). Uma fábrica de alimentos processados, afinal, não compra apenas grãos; ela consome análises laboratoriais, serviços de engenharia, consultoria de qualidade, tecnologia da informação e transporte especializado.
Trata-se do efeito multiplicador produtivo em ação, a dinâmica pela qual um investimento inicial em determinado setor desencadeia um aumento em cadeia na produção, na renda e no emprego de diversas outras atividades. É exatamente esse impulso que o setor primário, isoladamente, não consegue oferecer com a mesma intensidade. Enquanto uma lavoura de soja demanda, majoritariamente, mão de obra sazonal e altamente mecanizada, uma agroindústria de processamento opera de forma contínua. Ela emprega engenheiros de alimentos, técnicos de laboratório, operadores industriais e analistas de logística ao longo dos doze meses do ano, oferecendo carteira assinada e perspectivas reais de carreira.
O Tocantins possui condições concretas de dar esse salto. A soja que já brota em nosso solo pode ser convertida em óleo vegetal, farelo proteico, lecitina industrial, bioplásticos e insumos farmacêuticos. O arroz irrigado das bacias do Formoso do Araguaia e Lagoa da Confusão tem potencial para se transformar em arroz integral premium, farinha de arroz, bebidas fermentadas, alimentos funcionais e, fundamentalmente, em produtos com Indicação Geográfica e Denominação de Origem Controlada, à semelhança do célebre Riso DOP (Denominação de Origem Protegida) italiano, que certifica a qualidade e o processamento rigoroso de regiões específicas. Da mesma forma, a pecuária extensiva pode evoluir para frigoríficos de alta tecnologia, couro processado, gelatinas e fármacos de origem animal. Por fim, o Cerrado, com sua biodiversidade única, reúne os elementos para abastecer uma indústria de bioativos, cosméticos naturais e fitofármacos, nichos pelos quais o mercado global já demonstra alto interesse e disposição para pagar prêmios elevados.
O que o poder público pode e deve fazer
A industrialização não acontece por decreto nem por vontade política isolada. Ela prospera, ou deixa de existir, a depender das condições que o poder público cria ou negligencia. Esse processo exige uma infraestrutura logística robusta, que reduza os custos de escoamento e atraia investidores; incentivos inteligentes, direcionados não a qualquer corporação, mas àquelas que agregam valor, geram empregos qualificados e fixam cadeias produtivas no território; formação técnica e universitária alinhada às demandas reais de uma economia manufatureira; e, por fim, crédito acessível para que pequenas e médias agroindústrias possam dar o próximo passo.
A Assembleia Legislativa do Tocantins desempenha um papel central nessa agenda. É em seu plenário que se chancelam os marcos legais do desenvolvimento industrial, as políticas de incentivos, os convênios com instituições de pesquisa, os fundos de inovação e os regimes de compras governamentais capazes de privilegiar o produto tocantinense processado. Legislar estrategicamente sobre o desenvolvimento econômico não é uma tarefa menor, é, talvez, a mais decisiva das atribuições de um deputado estadual comprometido com o longo prazo.
Países como a Coreia do Sul e a China não alcançaram o topo do desenvolvimento porque possuíam recursos naturais superiores aos do Brasil, pelo contrário, não os tinham. Chegaram lá porque decidiram, conscientemente, que a riqueza natural seria o ponto de partida, e não o ponto de chegada. O Tocantins pode seguir o mesmo caminho. A pergunta que precisa ser respondida por eleitores e candidatos neste ano de 2026 é simples: queremos continuar sendo meros exportadores de potencial, ou queremos nos transformar em produtores de prosperidade?
Conclusão: produzir mais riqueza a partir do que já temos
Não se trata de produzir menos soja ou de desmontar o agronegócio que levou décadas para ser construído. O desafio urgente é erguer, ao lado dele, a indústria de transformação que o completa, o valoriza e multiplica seus efeitos sobre a economia tocantinense.
A elasticidade-renda da demanda não é uma abstração teórica reservada às salas de aula de economia; ela é a bússola que separa as nações que enriquecem daquelas que estagnam. O Tocantins, com toda a sua exuberância natural e jovialidade institucional, ainda dispõe de tempo e recursos para escolher o lado certo dessa equação.
O caminho do futuro não exige que limitemos o campo, mas que expandamos a nossa inteligência produtiva. Precisamos extrair mais riqueza de cada grão colhido, garantindo que esse valor permaneça, cresça e se multiplique dentro das nossas próprias fronteiras. O Tocantins precisa parar de apenas exportar toneladas e começar, urgentemente, a exportar valor.
FRANCISCO VIANA CRUZ
É doutor em Economia e Professor do IFTO
E-mail: [email protected]













